(Premiado no XVI Concurso Literário Abdala Mameri - Araguari, MG/2009) 

 

Era, enfim, uma saudável laranjeira no quintal de uma casa grande e bem sólida, como as casas de antigamente. A família ali residente era numerosa, como as famílias de antigamente. Havia ainda um pé de goiaba e alguns mamoeiros, mas essas árvores cederam a vez à laranjeira para que sua história pudesse ser contada.

A laranjeira aprendeu a se orgulhar das suas laranjas, de tanto ouvir por reiteradas vezes serem elas doces e mimosas. Era sistemática. Só produzia na safra, entre os meses de abril e junho. Eram tantas as laranjas, que a família se servia à vontade e ainda podia distribuí-las aos vizinhos, em baldes, bacias e sacolas, quando não vinham eles mesmos buscá-las. Por tal generosidade, comum à época, a família recebia em troca: doces, bolos, pães caseiros, outras frutas e longas conversas de alpendre.

A árvore era também hospedeira das boas. Abrigava uma variedade de pássaros, dentre eles um João-de-Barro, chamado de Joãozinho pelas crianças da casa. Muitos anos se passaram sem que nada mudasse na rotina da árvore. Ela só conhecia o tempo presente. Enquanto isso, algo acontecia, a julgar pelas transformações que vinham ocorrendo por ali. A laranjeira tinha certeza de que era por causa das laranjas que todos consumiam em quantidade, safra após safra. A árvore parecia infatigável na arte de produzir laranjas, sempre doces e mimosas. Por causa disso é que as crianças da casa se tornaram adultas e se casaram e tiveram novas crianças que seguiram chupando laranjas e servindo a vizinhança e recebendo em troca tudo o que as laranjas podiam proporcionar.

Houve um dia em que a laranjeira amanheceu de um jeito diferente, com os galhos vergados, não porque lhe pesassem as laranjas. Não era tempo de laranja. O motivo era outro. Zezinho precisava saber com urgência o que estava acontecendo com a árvore hospedeira.

Quem era Zezinho?

Era o primo mais novo do Juninho, sendo este o irmão mais velho da Mariinha, que era a terceira neta do Joãozinho, aquele João-de-Barro que construiu a primeira casa na árvore.

Provocada por Zezinho, a laranjeira respondeu que estava se sentindo muito cansada e meio desiludida com a mesmice que era inundar de laranjas e vitamina C a família da casa e a vizinhança toda.

Zezinho suspeitou de que a velha laranjeira descobrira a segunda dimensão do tempo, o passado. Só isso poderia explicar o cansaço da árvore, imaginou. Zezinho ouvira dizer que uma ação, quando repetida por muitas vezes seguidas ao longo de muito tempo, pode produzir fastio ou, como ouvira da própria árvore, cansaço e desilusão.

Assim falou Zezinho:

– Essa boa amiga vem produzindo laranjas desde que meu ancestral, o Joãozinho, veio construir casa em sua copa. É provável que ela tenha descoberto ao longo de sua estática trajetória de vida a noção tão árida que é ‘o passar do tempo’.

O jovem João-de-Barro, compadecido da tristeza da árvore, sugeriu:

– Por que você não se aposenta, igual o seu Osvaldo e a dona Clara?

Dito isto, acrescentou:

– Ele passa parte do dia inspecionando o quintal e olhando cá pra cima, isto quando não está lendo jornal na varanda. A dona Clara aposentou-se do comércio e passou ao tricô, que pratica entre um cochilo e outro.

– Aposentar-me, eu? – balançou os galhos com surpresa.

– Sim!... – reforçou Zezinho – deixe de dar  laranjas,  mas não deixe  de  nos dar abrigo, por favor.A árvore entusiasmou-se tanto com a idéia, que foi logo tratando de desestimular a próxima florada.

Alguns meses depois sentiu pela primeira vez o alívio e o prazer de não ter mais de arcar com a produção anual de laranjas. Mesmo assim ainda seguiu dando algumas, sempre doces e mimosas, até que parou de vez. Deste modo, a família da casa pôde ir-se acostumando aos poucos à nova realidade.

Passado algum tempo, a aposentada laranjeira ficou sabendo por intermédio de um passarinho, que um morador próximo havia plantado um pé de laranja ‘de qualidade’, em razão de não mais ganhar laranjas doces e mimosas. A velha laranjeira, ferida em seus brios, sacudiu-se toda e se pôs a sugar a terra o mais que pôde. Três meses depois, se revestiu de uma densa florada.

Foi quando algo de estranho aconteceu, para surpresa geral e da própria laranjeira. A florada mostrou-se bem diferente do que sempre fora em qualquer época do passado. Assustada, a árvore confidenciou a Zezinho:

– Ao remexer minhas entranhas e elaborar minha seiva; ao me dispor à fotossíntese e me comunicar com a Lua, andei tendo algumas dúvidas de como era mesmo produzir laranjas.Zezinho, com pose de sabido, ponderou que aquele lapso de memória se devia a um fator agravado por outro. A laranjeira pediu que Zezinho explicasse melhor.– É simples, – disse ele – você já é uma árvore bem antiga e na sua idade você não devia ter ficado tanto tempo sem produzir laranjas. Você simplesmente se esqueceu como se faz laranja.Ao dizer isso, Zezinho se convenceu de que fez um belo discurso.

Mas a florada ali estava e nada mais poderia ser feito, a não ser esperar para ver no que ia dar aquele manto multicolorido. A passarinhada estava confusa diante da situação. A laranjeira mais ainda.

Qual não foi a surpresa, quando as primeiras frutas começaram a aparecer, ainda pequeninas e bem diferentes umas das outras, tanto na cor quanto na forma.À medida que foram crescendo a dúvida foi sendo sanada, até que não teve mais jeito. A laranjeira fizera uma grande proeza. As pequeninas frutas começaram a se distinguir como pêras, maçãs, jabuticabas, amoras e assim por diante. Nada menos do que seis frutas diferentes em seu retorno à condição de árvore produtiva.

A laranjeira ganhou o cognome de árvore-pomar. Todo mundo queria vê-la e conferir se era mesmo verdade o que andavam dizendo. A televisão apareceu para colher informações e, se possível, seus variados frutos.

Seu Osvaldo não teve mais sossego para ler nem para inspecionar o quintal como gostava de fazer, pois era solicitado a dar explicações, ora à mídia, ora a curiosos. Por conta disso, tornou-se até meio famoso. Já, dona Clara, não se abalou muito com aquilo tudo. Quando perguntada, costumava dizer sem erguer os olhos do tricô:– Fale com o Osvaldo.O passar do tempo se encarrega de tornar o extraordinário uma coisa normal. A ideia de uma árvore-pomar acabou sendo inteiramente assimilada por todos, fazendo com que a velha árvore retornasse à denominação original, embora continuasse a produzir uma variedade de frutas, além, é claro, de laranjas doces e mimosas.

É preciso dizer, que se tornou quase uma obsessão para a laranjeira produzir a cada ano uma nova espécie de fruta, no lugar de outras que não haviam dado muito certo.

Passado mais um bocado de tempo, quando a estação era a de inverno e ninguém mais falava no assunto, correu um boato entre a passarinhada dando conta de que a laranjeira aprendera a adivinhar o futuro.Coincidência ou não, aconteceu logo em seguida uma revoada definitiva dos passarinhos para algumas mangueiras mais ou menos próximas do bairro. No mesmo dia, a família mudou-se da casa. No dia seguinte, uma empresa de demolição chegou ao local trazendo um trator, dois caminhões basculantes, muitas ferramentas e pessoal uniformizado.Foram necessários apenas dois dias de trabalho para que tudo se transformasse. Surgiu ali um terreno absolutamente plano, cercado por um tapume colorido e enfeitado de bandeirolas, no qual se repetia de metro em metro uma logomarca famosa. Acima do tapume, uma enorme placa anunciava:CONDOMÍNIO LARANJEIRA. Apartamentos à venda.”