O CHORO E A ESPADA 

(Um dos20 contos selecionados, entre 1200, no II Prêmio Escriba de Contos – Piracicaba/1999)

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Há muito tempo G me pediu que eu contasse a sua história, passada na Argentina. Escrevo-a, finalmente, recompondo os fragmentos que dela me restaram.

G regalava-se nas esfuziantes luzes de Buenos Aires, no dia 24 de dezembro de 1966. Seu espírito jovem e aventureiro o levara até lá, a despeito da origem pobre e interiorana. Realizava no país vizinho seu primeiro exercício de independência e liberdade, conquistadas temporariamente à custa de uma penosa economia de dinheiro. Sentia-se belo como a cidade, trajando uma vistosa roupa social e muito brilho no olhar.

O relógio da Praça de Mayo anunciou dez horas da noite. Os cumprimentos de Natal que se sucediam a sua volta chegavam até ele e o envolviam. G acolhia a tudo com o espírito em festa e com tal enlevo, que não se sentia solitário, embora estivesse absolutamente só. Era um brasileiro anônimo confraternizando-se – no faz de conta – com a alma portenha.

Observava uma criança, quando na mesma direção fitou-o um senhor com seus setenta anos mais ou menos, elegante e de jeito afável. O homem aproximou-se de G e dirigiu-lhe um cumprimento com discreta intimidade. G retribuiu com um “feliz Navidad” e ficou meio paralisado ante aquele olhar, que embora firme, suplicava por um diálogo.

– Sou Pablo Martin Aguelha e quero lhe falar.

G assentiu com um sorriso. O homem continuou:

– Orgulho-me de ser um oficial das Forças Armadas Argentinas. Estou reformado há quatro anos e gostaria de lhe contar sobre minha família. O nobre rapaz me permite?

G, meio embaraçado, sugeriu que se sentassem em um banco da praça.

– Caro rapaz, sou viúvo há três anos. Minha filha Izalda casou-se com um médico americano e foi morar no Texas. Meu filho mais velho, Ariel Martin, é suboficial de nossa gloriosa marinha de guerra; está em alto mar, em um navio-escola. Tenho especial afeto por Ariel, porque herdou de mim a paixão pela carreira militar. Falo por último do meu caçula, Joseph Angel Martin. Joga futebol na Inglaterra. Tem vinte e dois anos e sonha um dia envergar a nossa  gloriosa camisa azul  e branca. Este é o  único que me causa uma certa preocupação, mas é um bom menino.

Disse e pareceu ausentar-se.Antes que G pudesse lhe dirigir qualquer palavra, respirou fundo, ajeitou a gola  do casaco e continuou:

– Quero lhe dizer que decidi não me curvar diante da realidade que o destino me impôs.

Incomodado por só ouvir, G encaixou de pronto uma expressão que simulasse o seu interesse por aquela cantilena e ao mesmo tempo cortasse o assunto, se a evolução da conversa assim o recomendasse.

– Que realidade lhe impôs o destino, Senhor?

– A de passar meus últimos natais na solidão, sem a presença de minha família. Venci inimigos em batalhas verdadeiras e simuladas, vencerei também a desdita que me separou de minha mulher e dos meus filhos.

Já mais à vontade, G pôde lhe perguntar como se sairia daquela situação.

– Simples, preparei, para hoje, em minha casa uma ceia de Natal como nos bons tempos. A última aconteceu em 1963. Dois meses após, minha querida Mafalda foi vencida por um câncer. A família desagregou-se rapidamente, cada filho tomando o destino que lhe relatei. No Natal seguinte, organizei a ceia reunindo meus próprios empregados. Mas o clima mais pareceu o de um velório. No Natal de 65 viajei só, experiência da qual não gosto de me recordar. Desta vez quero muita alegria e confraternização. Por isso, rogo que aceite o meu convite.

G pensou rápido, olhando para o céu escuro. Afinal, não estava ali por um brado de liberdade e aventura? Declinar do convite seria – quem sabe – descartar o maior ganho que o destino reservara para ele naquela viagem. Por outro lado, o velho, por de trás de sua simpatia e comoção, podia estar mentindo. Talvez fosse um homossexual ou um sadomasoquista tentando armar uma orgia. Também poderia ser um assassino em série ou simplesmente um lunático.

Decidiu, com firmeza no ato e doçura na voz:

– Sinto-me lisonjeado com o convite, Senhor Aguelha, e o aceito com muita honra.

Levantaram-se do banco e, aos primeiros passos, o velho o advertiu:

– Adianto-lhe que um guapo rapaz, operador da Bolsa de Valores de Buenos Aires, já aceitou o mesmo convite, bem como uma bela e educada comissária de bordo da ‘Air-Romana’. Assim, terei novamente uma família unida no espírito natalino, ao menos enquanto durar a comemoração.

Atravessaram em diagonal a praça, até chegarem a uma limusine azul-marinho. Dentro dela já se encontravam os outros dois convidados. O rapaz da Bolsa de Valores, ao contrário do que G esperava, era calmo e de gestos sóbrios. Tinha um copo de uísque na mão. A moça tomava um vinho branco e ofereceu a bebida com um sorriso. G aceitou o vinho, servido pelo motorista. Imediatamente, o veículo arrancou imponente, rumo a um bairro ao sul de Buenos Aires.

O Senhor Aguelha, vez ou outra, olhava para trás com um sorriso de quem estava triunfando em seu intento. G olhava para a aeromoça, ‘una bella ragazza’ de nome Graciella, que respondia com um olhar meio irônico, meio sedutor. O rapaz da Bolsa olhava um tanto sério para a paisagem que passava ligeira.

Após uma breve parada para que o portão abrisse, a limusine avançou para dentro dos domínios do Senhor Aguelha. A grandiosa mansão que avistaram era cópia fiel do Petit Trianon de Versalhes, em meio a um imenso jardim, ladeado por duas fontes luminosas.

Fora do carro, todos se entreolharam, surpresos e encantados com o que viam. Foram então conduzidos por um mordomo até o salão de jantar. Lá, já se encontrava uma senhora, bastante idosa, mas altiva, trajando um clássico vestido de veludo verde musgo. Ostentava brincos longos e um colar de pérolas, em harmonia com uma maquiagem bem feita. Irmã do anfitrião, parecia fazer com muito gosto o papel da falecida.

Acesos os castiçais sobre a mesa farta e ornamentada, cada um se postou atrás da cadeira que iria ocupar, com exceção da grave senhora, que permitiu-se sentar. Em silêncio, ouviram um breve e eloqüente discurso do Senhor Aguelha:

– Minha adorada Mafalda, meu dileto Ariel, minha doce Izalda, meu pequeno Joseph, não temos do que nos queixar. Meu espírito prático de velho militar tem acolhido o êxito de nossa família, mais como resultado do esforço e perseverança de todos nós do que por eventuais acasos ou benesses de que tenhamos sido beneficiários. Esta ceia de Natal há de ser marcante para mim, por dois motivos: primeiro, porque sinto em meu coração que esta será a minha última. Jesus teve a sua última ceia e eu, simples mortal, comungo com Ele em minha fé. Peço a vocês, meus filhos, que não se deixem levar pelos tempos modernos, que parecem querer abdicar de tradições como esta. Reproduzam em suas próprias famílias este ritual de amor e união,  e eu  reviverei neles,  de onde estiver. O segundo motivo que me enaltece é a bondade e o espírito de  nobreza dos convivas, que aceitaram a minha dádiva, sem que ao menos me conhecessem. Vocês terão para sempre o meu terno reconhecimento. Sintam-se como em suas casas, fartem-se, e depois sigam os seus destinos sob os auspícios de Deus. Um feliz Natal para todos e muito obrigado.

Simplifico neste ponto a história, afirmando que foi a ceia mais regada de luxo e cerimoniosa de que G houvera participado até então. Opinaram igualmente os outros dois convidados.

Findo o evento, foram instados pelo anfitrião a tomar um licor de laranja na sala de estar, diante de um enorme painel em óleo sobre tela, que retratava a vitória do  General José de San Martín sobre o general espanhol Zavata, em Santa Fé, por volta de 1814.

Bem ao lado da figura de San Martín, o velho homem, agora de semblante surpreendentemente transformado, ajoelhou. Então, curvando-se ao longo da espada do general, chorou copiosamente durante algum tempo. Foi a mais pura catarse; um choro franco, derramado diante de todos, o que deveria levá-los a um estado de perplexidade e constrangimento.

Deveria, mas não foi bem o que ocorreu. O rapaz da Bolsa de Valores postou-se diante do homem em pranto e ficou a confortá-lo, meio sem jeito. A velha dama de veludo não estava ali e sequer soube da cena. Graciella voltou-se para G e se tomaram em prolongado beijo, talvez o modo como seus sentidos interpretaram aquela cena de exacerbação do corpo e da alma.

Tudo terminou repentinamente. O homem se recompôs num instante, reassumindo sua postura ereta de militar da armada. Mas havia em seu rosto um ar quase juvenil de serenidade e alívio. Acabara de expurgar toda uma angústia acumulada e reprimida por longo tempo. Era obvio que tudo resultara dos acontecimentos  favoráveis  daquela noite, culminados com o choro   de purificação.

G cumprimentou o militar, dizendo-lhe que estava diante de um homem vitorioso, de muita coragem e iniciativa. Disse-lhe mais, que ele acabara de ter, talvez, a sua maior vitória, porque venceu um inimigo invisível e traiçoeiro, que costuma empurrar as suas vítimas nesta fase da vida para o ostracismo, de forma vil e sorrateira.

O homem abraçou G fortemente, num misto de despedida e agradecimento. Em seguida, dirigiu-se a Graciella, beijando-lhe a mão, e ofertou-lhe um bracelete de ouro. Ao rapaz da Bolsa, disse um ‘até breve’ e o abraçou. Finalmente, acompanhou a todos até a limusine que os levaria de volta.

O rapaz da Bolsa saltou primeiro. Restaram Graciella e G, unidos em sua impensável aventura.