(1o lugar no XLII Concurso Literário Abdala Mameri - Araguari; MG/2011)

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(1950)

A casa começava a tomar jeito. Era novíssima, e eu também. Mais do que um simples guarda-roupa, eu era uma obra de arte, cujo raio de percepção se estendia à paisagem que a janela propiciava. No mais, estava irremediavelmente limitado a quatro paredes. Isto me levou a desenvolver um enorme senso de imaginação.

Estava acabando de ganhar um espelho de corpo inteiro. Seria, pois, testemunha em detalhes e circunstâncias de tudo o que ocorresse ao meu redor. O assoalho, que já recebera três demãos de cera de carnaúba, foi coberto com duas lonas trespassadas, para protegê-lo do vaivém do marceneiro.

Bem à minha frente, uma ampla janela de duas folhas deixava ver uma paisagem encantadora. Tinha os ingredientes de um quadro de Almeida Júnior: árvores floridas, parte de um bangalô esfumaçado, a curva de um riacho e a silhueta de uma serra azulada, tudo encimado por um céu mutante ao sabor do tempo e das estações. Ao parapeito da janela só faltava o suporte para vasos de plantas ornamentais.

Fiquei imponente depois que recebi quatro portas entalhadas que ocuparam toda a minha frente, ocultando tudo, inclusive dois conjuntos de gavetas. Os maleiros ganharam portas independentes, acessíveis com uma escada telescópica encaixada do meu lado direito. O travamento de contrafortes e montantes me conferiu grande rigidez, mas prefiro falar de minha sensibilidade. Fui desde sempre um guarda-roupa dotado de curiosa contradição: no mesmo corpo, um espelho amplo e revelador, e um fundo falso ocultando um cofre de segurança.

Era maçante ser um guarda-roupa vazio. Estava cheirando a verniz havia quase um mês, tempo suficiente para o marceneiro concluir o restante da casa. Finalizada a floreira da janela, o homem juntou as ferramentas e desapareceu. No mesmo dia, começaram a chegar as guarnições de cama e banho. No outro, as roupas de um casal, pelo visto, muito jovem. Tudo foi sendo meticulosamente distribuído por uma camareira que falava sozinha enquanto fazia o serviço.

Às nove horas da noite de um sábado, a porta do quarto foi tocada. Primeiro o giro da maçaneta, depois um empurrão, seguido da entrada do casal. Ele trajava terno preto, gravata vermelha e uma flor na lapela. Ela, um volumoso vestido de noiva. Vinha no colo, entre risos e beijos. Esta cena foi única nos sessenta anos que se seguiram. Despojados das vestes de gala, seguiu-se o protocolo sexual que me abstenho de relatar.

Passados dez meses, o quarto ganhou um berço. Clara, a futura mamãe, não admitia a ideia de que seu filho ficasse no quarto ao lado, pelo menos enquanto fosse um bebê.

 (1955)

Juninho já não frequentava o quarto do casal. Circulava pela casa com desenvoltura, fazendo peraltices. A mãe vivia a remexer os vasos da janela e a experimentar roupas, especialmente os vestidos longos. O cigarro entre os dedos afilados passava a impressão de certo desespero. Eu era um guarda-roupa cheirando a cigarro, embora ela me aspergisse lavanda e colocasse em meus cantos bolinhas de naftalina.

Ariosto, o marido, era caixeiro viajante. Quando uma buzina de três tons soava, era o Ari chegando. Aí o clima mudava. A casa toda parecia se movimentar de uma alegria novidadeira, até que vinham para o quarto. O cheiro de cigarro irritava de pressinha o marido, o que provocava o choro de Clara. Depois de uma discussão conciliadora, o protocolo sexual se impunha bem ali, na minha frente, após o que Ariosto removia meu fundo falso e abria o cofre, de onde tirava uns papeis e os misturava a outros que espalhara pela cama.

(1958)

Coisas começaram a acontecer. O bangalô que se via da janela fora reformado, ganhando cor marrom-tijolo. O riacho já não podia mais ser observado daquele ângulo, por causa de um tapume erguido alguns metros antes. Soprava um vento enjoado naquela tarde de agosto. Um rapaz entrou no quarto meio assustado, conduzido por mãos sôfregas. O protocolo foi cumprido com nova formação e um ardor diferente, sem nenhuma restrição ao cigarro. Ele também fumava. A partir daí, o protocolo se repetiu com certa regularidade, sempre no mesmo horário, por volta das quatro horas.

Certo dia, a buzina de três tons anunciou mais uma vez Ariosto. No sobressalto, o rapaz juntou o que pôde e refugiou-se no espaço para vestidos longos.

Eu fui feito de madeira maciça, o que salvou a vida do amante. Três balas detonadas de um revolver, empunhado por um Ariosto furioso, absorvi sem dificuldade. Uma delas estilhaçou um canto do espelho, conferindo ao episodio um ar pitoresco. Clara se atirou corajosamente sobre o marido com o intuito de contê-lo, ao mesmo tempo em que o amante resolveu sair do esconderijo. A cena se resumiu a uma imagem congelada por alguns segundos, em que ninguém dizia nada. Foi Ariosto quem a descongelou, baixando o revolver e pedindo ao intruso que desse o fora.

 (1962)

Desde o episódio havido naquele final de inverno de 58, as coisas mudaram um bocado por aqui. A casa foi desocupada e mantida fechada por quatro anos, durante os quais recebeu visitas periódicas do caixeiro viajante. Sua primeira visita, semanas após a dissolução do casamento, foi acompanhada do marceneiro, que substituiu o espelho estilhaçado e desencravou as balas, tudo em respeitoso silêncio.

Havia agora uma movimentação nova e carregada de entusiasmo. A casa fora alugada para uma família barulhenta que enlouquecia com futebol. O telhado ganhou uma antena de televisão. Era tempo de Copa do Mundo e os jogos seriam transmitidos em vídeo-teipe, dois dias após acontecerem. Ainda era o rádio que imperava em alto volume na sala de estar.

(1966)

A família barulhenta morou aqui durante quatro anos. Foi um período bastante divertido. O quarto era ocupado por um casal que se dava muito bem. Seu protocolo sexual não tinha dia nem hora certos. O quarto virava um palco de teatro e eu participava das encenações. Ora a mulher ia se trajando sucessivamente com as roupas que eu guardava, ora ele se escondia aqui dentro, para “surpreendê-la” em meio a risos e galhofas. Quando tudo terminava, o quarto estava repleto de roupas espalhadas pelo chão, e eu vazio e de portas escancaradas.

Certo dia veio um caminhão de mudanças. Horas mais tarde, as portas e janelas foram fechadas e a casa mergulhou no silêncio e na escuridão. Isso durou quase quatro anos, tempo suficiente para que o mofo tomasse conta de todos os cômodos. Tive sorte, pois os cupins só me descobriram em 1969.

(1970)

Em uma manhã de julho de 1970 fui acordado de longa hibernação por muita luz natural e gente conversando. Dois rapazes começaram a examinar o quarto. Um deles era o Juninho, agora com dezenove anos. Iam usar a casa como república de estudantes. Juninho havia acabado de ingressar na universidade para cursar engenharia civil. Seu plano era ocupar o quarto que um dia fora de seus pais e cobrar aluguel dos colegas que ocupariam outros cômodos da casa. Logo teve início uma faxina completa. Eu me senti extremamente feliz.

(1975)

Aprendi o que era uma república. Ora, completo silêncio; ora, ruidosa festança. O quarto virou uma zorra. Livros e pastas foram sendo empilhados ao longo de cinco anos, em prateleiras rústicas ou no assoalho, que já não recebia mais a proteção periódica da cera de carnaúba. Uma mesinha de estudos ocupava o mesmo local onde, em 1951, ficara o berço de Juninho. Eu, que já cheirara a naftalina, cigarro e lavanda, agora podia cheirar a qualquer coisa, inclusive a sanduíche de bacon. Virei um guarda-tudo.

Juninho transformou as floreiras da janela em atrativo para pássaros e pombos. O rapaz, cabeludo e de barbas longas, colocava ali restos de alimentos e água para atrair as aves. A paisagem vista da janela já pouco lembrava as de Almeida Júnior. O que se via era uma cidade em crescimento. O bangalô fora demolido para dar lugar a um edifício de dez andares. O riacho fora canalizado. Sobre ele passava uma ampla avenida.

O final de 1975 se revestiu de um clima festivo. Era a formatura do Juninho. Numa tarde nublada de dezembro, o formando veio ao quarto acompanhado da garota Maíra. Sem mais delongas, rolou um protocolo sexual. Fiquei certo de que aquilo fora produtivo, ou melhor, reprodutivo! A moça foi embora e Juninho recolocou a surrada calça jeans e a camiseta com a estampa de Che Guevara.

(1977)

O mês de junho foi marcado por uma tragédia. Juninho morreu em um acidente de automóvel. Viajava a serviço. A casa deixara de ser uma república havia apenas dois meses. Maíra, viúva e no quarto mês da segunda gravidez, ficara sob a responsabilidade de criar Ariostinho, de um ano de idade. Ela e o filho ocuparam a casa, tendo de encarar um plano de sobrevivência. Associou-se à irmã mais velha e a um primo, e transformaram parte da casa em um restaurante de comida natural.

Os dois anos seguintes foram difíceis. Nenhum dos sócios entendia dos assuntos que envolvem a dinâmica de um restaurante. Aos poucos, foram ganhando experiência e o estabelecimento adquiriu bom status e clientela regular.

(1980)

Uma denúncia anônima fez com que a polícia viesse até aqui à procura de evidências de que o local seria ponto de consumo de drogas. Nada foi encontrado, até que abriram minhas portas. A polícia técnica descobriu o fundo falso. Maíra tentou despistar, afirmando que não conhecia o segredo do cofre, mas cedeu à pressão. O cofre guardava certa quantidade de cocaína. A prisão de Maíra arruinou o restaurante, desativado semanas após o incidente. Ariostinho e sua irmã, Janaina, foram morar com uma tia, até que Maíra foi posta em liberdade condicional, em meados de 1982.

Em uma segunda-feira ensolarada, depois de quase dois anos sem ver a luz do dia, a casa novamente se iluminou. Maíra, Ariostinho e Janaina estavam de volta. A casa virou um pensionato para moças, o que garantiu a subsistência da família daí por diante.

(2000)

Peço licença para recuar no tempo. O ano de 1982 marcou o início de minha tragédia pessoal. Ariostinho quebrou meu espelho. O moleque tentava alcançar o maleiro utilizando a escada telescópica, quando acabou arremessando-a contra a porta central. Minha memória fluía do que o espelho captava para o cerne de minhas madeiras. Se por um lado não perdi essas memórias aqui relatadas, por outro fiquei impossibilitado de saber o que se passou durante esses dezoito anos em que estive praticamente cego, ou melhor, dotado de um ridículo espelhinho de 30 x 20 cm, adquirido em um camelódromo, que mal me permitia distinguir o dia da noite. Finalmente, ganhei de novo um espelho de corpo inteiro. Só, então, eu soube que Maíra vivia com um namorado desde 1990 e que Ariostinho, agora com 24 anos, e Janaina, com 23, continuavam na casa, mas a mãe não.

Janaina administrava o pensionato e Ariostinho tinha uma banda de rock, o que provocava sua ausência por períodos relativamente longos.

(2005)

Bons tempos aqueles em que eu cheirava a lavanda e minhas portas abriam suavemente. Hoje tenho cheiro de madeira que se exauriu e de roupa suja guardada. A porta da esquerda só abre com um solavanco e a da direita não para fechada. Mas antes fosse só esse o problema. Ariostinho retornou de uma turnê pelo nordeste, acompanhado da namorada e do filho (de ambos), uma criança de dois anos e meio. O rapaz vinha enfrentando uma crise depressiva que se agravou desde que chegaram aqui. Janaina se viu obrigada a acomodar a todos no pensionato. Felizmente, as coisas foram se ajeitando: Ariostinho saiu da crise e viajou em turnê com a banda; a namorada assumiu uma função no pensionato e o filho começou a frequentar uma escola pública.

(2010)

Estava aqui a pensar nestes sessenta anos de existência, quando ressurge, vindo não sei de onde, o velho Ariosto. Lembranças revoaram. O homem vai fazer 82 anos de idade. Foi carinhosamente acolhido pela neta Janaina. Vive em cadeira de rodas, desde que sofreu um acidente vascular cerebral.

Quanto a mim, ganhei a manutenção de que tanto precisava. Fiquei em estado de novo. Além disso, fui agraciado pelo destino; cheiro a perfume de fragrância suave e duradoura, graças a duas moças muito alegres e amicíssimas entre si, que ocupam meus espaços faz uns quatro meses.

Cá entre nós: protocolo igual a esse eu nunca tinha visto.