(Um conto sem ‘quês’ e sem ‘porquês’.)

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O surrealismo tropical superou os próprios limites na saga de Erasmo Tristão. O moço ralou os fundilhos até obter o almejado emprego em uma empresa pública federal. Amanda Bravo, a namorada, compartilhava com ele um fulgurante estado de felicidade.

Estavam juntos havia pouco mais de um ano, tempo suficiente para a conciliação de seus projetos pessoais. Além disso, ambos buscavam o fortalecimento do espírito frente às novidades, pois tudo em volta era novo ou assim parecia, e muito do novo ainda estava por vir.

A pós-modernidade vivia seu segundo momento crítico. As expectativas de toda ordem tomavam o lugar antes ocupado por uma tradição arraigada. As mudanças nos usos e costumes e a incerteza interposta até nas ações mais banais afligiam as pessoas, mas não de uma forma politicamente opressora. Tratava-se simplesmente da lenta consolidação de uma nova cultura sem precedentes. Configurava-se, no juízo geral, um novo tempo.

O efêmero ditava. A comunicação escrita, figurada em linguagem breve e de sonoridade neo-rap, ganhava espaço na mídia, prometendo abalar setores tradicionais de todos os poderes. A indústria livreira, por exemplo, tentava se adaptar, sob o temor de ver seu produto tradicional se extinguir nessa nova ordem, caso insistisse em manter os cânones linguísticos solidificados ao longo dos últimos séculos. Além da inevitável incorporação de uma nova dialética de linguagem, valia tudo, desde livros em 3D até alguns dotados de exalações hormonais ou olfativas.

No primeiro dia útil de abril, Erasmo Tristão saiu de casa para o trabalho se sentindo extremamente feliz. Afinal, detinha o essencial nesse momento da vida: um emprego promissor e o amor da amada. Só não sabia ainda, o moço, o fundamental: estabelecer uma melhor relação com o uso do tempo, o valor paradigmático da pós-modernidade.

O tempo cronológico era o parâmetro balizador para todas as ações, fossem produtivas, fossem as de lazer. Um produto de supermercado, por exemplo, tinha de exibir o tempo médio decorrido desde a seleção das matérias-primas até o acondicionamento na embalagem.

Ocorria o oposto em relação às refeições. O café da manhã, o almoço e o jantar deviam ser consumidos vagarosamente. O cidadão não cumpridor desta ‘regra-inversa’ do uso do tempo, caso viesse a adoecer, poderia ter contra si um diagnóstico médico condenatório.

Outra exceção importante se dava nas viagens de automóvel. Um controlador eletrônico no entroncamento rodoviário mais próximo registrava três parâmetros: destino, roteiro e tempo de início da viagem. Um bilhete impresso informava ao viajante o horário previsto para se chegar ao destino. Se chegasse mais cedo, ficaria recluso num desvio por pelo menos o dobro do tempo ganho em virtude da pressa. Não havia mais radares nas estradas nem placas sinalizando limite de velocidade.

Erasmo Tristão cumprimentou um a um os colegas de repartição e se pôs ao trabalho.  Alguma coisa no processo em mãos parecia não se encaixar direito ao olhar crítico do funcionário novato. Envolvido pelo desejo irresistível de desvendar o mistério posto, não percebeu o tempo passar em delituosa demasia.

Cinco minutos após o processo chegar às mãos do supervisor-chefe, Erasmo Tristão foi chamado para assinar uma notificação. O papelzinho azul era jocosamente apelidado de pré-sentença. O bom moço tentou disfarçar a pulsação acelerada diante do supervisor. Este só desejava sua pronta assinatura. Encerrado o expediente, foi para casa.

No dia seguinte, ao adentrar a repartição, Erasmo foi abordado por um oficial de justiça:

– Acompanhe-me, por favor – disse o homem.

Erasmo foi levado ao Salão Oval, onde três meses e meio atrás havia participado da festinha de amigo secreto. O lugar se transformara em um tribunal. Sentou-se atônito no banco dos réus. O relator oficial, trajando uma túnica vermelha, leu com voz fluente o auto de acusação.

Erasmo Tristão ouvia o pronunciamento contra si pousando um olhar passante nos presentes, mas sempre retornando ao Meritíssimo Juiz, homem de semblante sério e cenhos convergentes. Não houve debate entre as partes. Segundo a legislação em vigor, em havendo consenso de transcurso, a sessão não poderia exceder uma hora de duração.

Dois minutos antes de expirar o prazo regulamentar, o Meritíssimo Juiz fez o réu se levantar para ouvir a sentença:

– Dez anos e 26 dias, em regime fechado, pelo crime de Procrastinação Recalcitrante.

Proferida a sentença, o advogado de defesa rogou ao Meritíssimo estender o decurso por mais dois minutos, com o fito de esclarecer ao réu a tipologia do crime, pois o infeliz, ao ouvir a sentença, declarara aos gritos não saber o significado de procrastinação, ainda mais agravada de tal recalcitrância.

O magistrado foi enfático.  Não se aludiria ao significado de nenhum dos termos da sentença e enfatizou:

– Este Tribunal não é uma escola!

Contudo, ressalvou facultar ao apenado, em sua cela, o uso irrestrito de uma coleção enciclopédica recente e atualizada, composta de doze magníficos volumes. E mais. Tão logo o sentenciado descobrisse por seu próprio esforço o significado das palavras condenatórias, bastaria comunicar o fato por escrito e de próprio punho ao diretor do presídio.

Este encaminharia, no ato, uma petição à corte competente, a favor da liberação do recluso, para surtir efeito eficaz após no máximo um dia e duas horas.

No entender do Juiz, a pena prescrita sob a forma de ‘tempo flexibilizado’, ajudaria Erasmo Tristão a aprender de uma vez por todas o uso parcimonioso do tempo... “essa insubstância fundamental...”.

Permitiram a Erasmo Tristão e Amanda Bravo conversarem uma última vez, por três minutos. Erasmo se despediu chorando da namorada. Segundos após, ouviu a porta de aço ser fechada atrás de si.

Era preciso encarar logo a enciclopédia. Tanto mais cedo, melhor. A beleza da encadernação o fez começar pelo volume I.

Ao abri-lo na primeira página, foi tocado pelo cheiro sedutor de papel impresso novo, de onde sentia emergir silenciosas vozes e imagens de lugares onde jamais estivera. Desejou conhecer cada palavra portadora de sabedoria, embora desejasse mais ainda dar o fora da prisão e retomar a vida de cidadão livre, acompanhado de Amanda Bravo. Dela só possuía uma foto em preto e branco, onde a diva posava sensualmente sobre uma pedra, com os braços estirados para traz e sorridente, registro de um passeio compartilhado entre os dois às margens do Rio Claro.

Não havia enciclopédia a igualar a liberdade ora em recesso. No entanto, o conhecimento ensejado pela obra poderia levá-lo de volta à namorada e a uma nova dimensão de liberdade, verdadeiramente grandiosa.

Os olhos do bom moço custaram a decidir se era para se deter nas múltiplas definições de um verbete ou se deviam contemplar as belas ilustrações.

O trabalho começou de fato pela palavra ‘ababelado’. Erasmo Tristão se surpreendeu com o significado do verbete: ele próprio se encontrava ababelado, desde a abordagem pelo oficial de justiça até a proclamação da sentença. A definição não deixava dúvidas, fora vítima de uma confusão digna da torre de Babel.

Este primeiro encontro gráfico foi o bastante para fazê-lo se render definitivamente à majestade da enciclopédia. Daí em diante, seu empenho operário o impediria de pular etapas. Tinha de explorar cada significado de cada verbete e sorver detidamente cada ilustração. E tanto mais o fazia, maior era o encantamento.

A adaptação à realidade do presídio se fizera na medida do possível. Erasmo Tristão era bem aceito entre os presos e admirado como intelectual, por desfiar com desenvoltura histórias temperadas por um tino criador proveniente da leitura continuada dos volumes. A hora de tomar sol havia se tornado mais interessante para alguns.

Cinco anos depois, examinando o volume V, o livro lhe revelou ser sua situação semelhante à de uma saga kafkiana. Deixou de lado por uma semana o estudo da coleção, para ler “O Processo”. Por sorte, o romance jazia no carrinho de livros empurrado por um guarda pelos corredores do presídio, dia-sim, dia-não.

Um fato a bem dizer inevitável acabou por acontecer. Erasmo Tristão recebeu uma carta de Amanda Bravo. Nela, a moça comunicava estar em novo relacionamento havia dois anos e alguns meses. Solidarizava-se com ele na busca da liberdade, nos termos estabelecidos pelo Meritíssimo Juiz.

Erasmo Tristão foi tomado de uma vontade irresistível de ir direto aos verbetes de sua libertação, mas uma força aguda, dominante, muito superior ao desejo de rever o mundo exterior, com ou sem Amanda Bravo, o fazia retomar a cada vez e com maior ímpeto seu estudo paulatino.

Acabara de descobrir, entre outras coisas, haver traços indeléveis da Idade Média no seu antigo ambiente de trabalho e, de resto, na famigerada sociedade (mal)dita pós-moderna, promotora de sua absurda condenação.

Um estado depressivo seria previsível nele, ainda mais depois da carta recebida. Erasmo Tristão passou cerca de dez meses sem tocar a enciclopédia. A ideia de encarar uma palavra o sufocava. Pensou em suicídio algumas vezes, mas acabou sempre se socorrendo na lembrança de Amanda Bravo, embora vã.

Passado esse tempo difícil, Erasmo Tristão teve uma luz: era preciso retomar o estudo, pois estava em jogo a sua liberdade. Precisava chegar aos verbetes causadores de sua desdita. Além do mais, via nisso a compensação de estar saindo da experiência, intelectualmente transformado. Seria, doravante, um insigne professor de conhecimentos gerais.

O volume IX iniciava com os verbetes começados por ‘p’. Estava, pois, em vias de alcançar o seu desiderato. Tendo acabado de examinar a palavra próclise, sentiu os hormônios lhe contaminar o sangue. Sob tal condição, foi acometido de uma ideia preocupante. Se fosse ao significado da palavra ora pulsando debaixo do seu polegar direito, não teria mais nenhuma condição psicológica de concluir o estudo enciclopédico. Levaria para a nova vida uma intelectualidade inconclusa. Cuidando para não por os olhos na dita palavra, virou a página e prosseguiu no estudo de mais de oito anos.

A situação criada ao contornar a ‘palavra pulsante’ trouxe-lhe um enorme drama de consciência. A cada nova palavra aprendida, vinha a vontade impetuosa de retornar e ler com os dois olhos bem abertos o significado do verbete posto a seu alcance desde o primeiro dia de cumprimento da pena. Erasmo Tristão bem gostaria de compreender a natureza das forças emergidas de si para preferir o estudo completo de uma obra diabólica (no bom sentido) ao invés de optar pela liberdade imediata. Aprendera, contudo, ser possível resistir e seguir em frente.

O estudo sistemático empreendido por Erasmo Tristão, em nove anos e meio de reclusão, lhe proporcionou alguns episódios risíveis, como aconteceu ao conhecer os significados da palavra recalcitrante: obstinado; teimoso. Achou graça de ter sido acusado de agravamento, por obstinação ou teimosia, de um delito nomeado por uma palavra (procrastinação), cujo significado ainda desconhecia, pois deixara tal nominação como o último verbete a ser aprendido. Estendendo a leitura até altas horas da noite, não demorou muito para chegar ao volume XII, cujo estudo foi acompanhado de ansiedade crescente. Erasmo Tristão se sentia como o viajante avistando a cidade natal, depois de longa ausência.

Chegara, finalmente, ao último verbete, ‘zurzir’: golpear com chibata, infligir pena ou castigo.

Aleluia! Ali estava a chave do enigma não anunciado. Ele, vítima inconteste de um processo ababelado, fora cruelmente zurzido por esses anos todos. A justiça se pusera contra ele nas duas extremidades do alfabeto e, ironicamente, lhe facultara conhecer boa parte da experiência humana, através de uma obra literária arrebatadora.

Foi preciso um grande esforço mental para afastar tantos pensamentos desordenados em tal momento de euforia. Havia acabado de concluir o estudo completo da enciclopédia, verbete por verbete. Deixara por último somente a palavra do volume IX, procrastinação: adiamento, delonga.

O momento era especial. Conhecia agora o teor completo do seu crime. Ferira o preceito mais caro à sociedade pós-moderna. Cometera esbanjamento deliberado do tempo, agravado por não acatar a duas advertências verbais sucessivas do seu chefe, isto é, recalcitrara no erro.

Com o coração em júbilo, concluiu orgulhosamente não ser outro seu verdadeiro talento, senão o de se deter no estudo do significado mais profundo das coisas. Justamente isso o condenou, justamente isso o salvara doravante da mediocridade existencial.

À moda de um filme épico, Erasmo Tristão recebeu outra carta de Amanda Bravo comunicando sua viuvez recente. Falava também da filha de cinco anos incompletos. Pedia notícias e afirmava saber da proximidade do final da pena. Dizia esperá-lo saudosa, confiando restar ainda o essencial do antigo relacionamento, interrompido por sabido infortúnio. A menina Sara desejava muito conhecê-lo. A carta vinha acompanhada de uma foto de mãe e filha, duas belezas resplandecentes ao olhar faminto de Erasmo Tristão.

Engrandecido como jamais estivera, exceto ao adentrar pela primeira vez a repartição de sua desventura, e acalmado pela reflexão acerca de sua verdadeira especialidade – a de analisar o mérito das minúcias – anotou em um papel, com letra bem desenhada, as sentenças redentoras para o retorno à vida comum:

“Procrastinação recalcitrante, Meritíssimo Juiz, é...”

O diretor do presídio só fez retirar da prateleira o “Processo Contra o Sr. Erasmo Tristão” e dar a ele o andamento de praxe.

Às três horas da tarde do dia seguinte, Erasmo Tristão arfou o peito e viu a rua pela primeira vez nos últimos 10 anos e 26 dias. Um táxi de luxo o aguardava com a porta traseira aberta, tendo ao lado um taxista elegantemente uniformizado.

Erasmo Tristão anunciou seu destino:

– O lar de Amanda Bravo e da menina Sara.

O surrealismo tropical superara os próprios limites. O taxista era o ex-Meritíssimo Juiz do Salão Oval, agora realizando nas vias públicas seu sonho dourado de infância.