(M. Honrosa XI Conc. Nac. de Contos 'Prêmio Jorge Andrade'; Barretos- SP/2004)

'Ah que a tarefa de narrar é dura' / Dante Alighieri

Ao virar mais uma página de “Dante”, finalizou-se minha vida ou o que dela restava. A sensação era nenhuma; processo rápido, insípido e indolor.

Num mover de sobrancelhas lá estava eu, só restando saber em que lugar. A voz, saída de uma gruta no sopé de uma montanha, proclamou-me no Purgatório.

Dos males o menor, pensei, com a sensação de que ainda segurava o livro do florentino. A voz vinha agora de um vulto. Não gastou tempo com mesuras nem quis identificar-me perante outros que ali estavam. Apenas anunciou minha pena:

- Trinta vezes o tempo que eu vivera afastado da Lei Divina.

Fiz as contas. Mais ou menos 1400 anos de burgação. Uma barbaridade!

Perto de me desesperar, evoquei minha família. Havia gente muito especial, disposta a rezar por uma alma em trânsito, maneira única de encurtar o tempo de permanência naquele intermezzo. Contava, também, com gente amiga, que haveria de me desejar em orações o melhor dos destinos.

Assim foi feito. Fizeram novenas e mandaram celebrar missas. O resultado não poderia ter sido outro. A pena foi reduzida para seis meses. Isso mesmo! A bagatela de 182 dias e doze horas. Como não havia nenhum momento de ócio no Purgatório, esse tempo, com certeza, passaria voando.

Decorrido o último segundo de purgação, a gélida quietude do lugar é quebrada por uma intensa exclamação coletiva, seguida de prolongados aplausos. Era minha alma remida sendo aplaudida por outras almas, como se cada uma aludisse à sua própria remição, anciosamente aguardada.

Fui ao Céu!

Mal havia chegado e dois anjinhos começaram a me assediar como se imitassem borboletas. Beijavam meu pescoço e fugiam, beijavam e fugiam. Deixei-me contagiar pela sanha daquelas criaturinhas, até que um senhor muito simpático e de dentes alvíssimos aproximou-se e começou a me fitar com um sorriso de boas-vindas. Depois de um tempo, que pode ter excedido um minuto ou dez anos, proferiu a sentença:

- O Céu é vosso!

Agradeci e não fui mais 'incomodado' pelos anjinhos espoletas.

Um anjo adulto aproximou-se de mim. Belíssima imagem de mulher, vestida em farto cetim rosado.

Perguntei:

- Por que você não está de branco?

- Porque estamos no 'lustro das cores' - respondeu.

- Lustro das cores... interessante - ponderei.

Ela sorriu e me perguntou com brandura:

- Por onde quereis começar?

Tive um acesso de riso acompanhado pelo riso do anjo, que respondia com a mesma intensidade cada riso meu. É que eu me lembrara de um filme de humor. Lá, a resposta fora: "Pelas preliminares". Tratava-se de uma excursão a um museu. Os visitantes eram monitorados por uma jovem bela e sensual. O gracejo saira da boca de um cafajeste.

O anjo respondeu de pronto:

- Então, pelas preliminares.

E deixou cair suavemente a túnica rosada, enquanto se esticava para acionar um timer preso a uma nuvem, no qual marcou o número dois.

- Só dois minutos? - perguntei.

- Dois séculos! - respondeu-me, deixando seu corpo totalmente à mostra.

Indaguei se podia renunciar àquilo.

- O Céu é vosso, não vos lembrais? - disse o anjo, vestindo novamente o cetim, sem demonstrar nenhum recentimento por minha desistência.

- Então, sem preliminares e sem o 'finalmente' - disse ao anjo e me justifiquei:

- Não quero 'terrenizar' a este ponto minha vida no Céu.

- Não é vida, é eternidade - corrigiu-me e voltou à questão inicial:

- Por onde quereis começar?

...

Andara a cavalo uma única vez em vida, experiência da qual jamais me orgulhei. Não sabia como dominar as rédeas de toda aquela vitalidade equina. Não realizara, portanto, a magia unificadora do centauro. Era o teso cavalo e eu, um par de pernas finas mal equilibradas no dorso de um animal compassivo de minha inaptidão.

- Céu é poder!... - bradei bem alto para o anjo e completei:

- Quero Cavalgar!

O anjo arqueou-se sobre o cetim rosado para se transformar num animal puro-sangue. Montei-o e disparamos exatamente como eu queria que tivesse acontecido outrora. O cavalgar repetia o verso mais famoso do florentino, um refrão quase hipnótico: "Nel mezzo del cammin di nostra vita; Nel mezzo del cammin di nostra vita...".

Depois de viajarmos durante dias ou séculos e passarmos como um corisco por prados verdejantes, alagadas várzeas, relevos montanhosos e infindos desertos, lembrei que devia poupar o animal, dar-lhe, por assim dizer, um merecido descanso.

- No Céu ninguém se cansa; nem cavalo nem cavaleiro! - foi o que ouvi.

Continuamos a jornada.

Quando cavalgar já se tornara enfadonho demais, apeei e disse:

- Fim da experiência! Quero vê-la de novo, anjo do cetim rosado.

O 'puro-sangue' começou a se retorcer com suave elegância, fazendo ressurgir de lascivos movimentos a bela figura de minha acompanhante.

Perguntei:

- Seu nome, por acaso, é Beatriz?

O anjo respondeu em tom de reprimenda:

- Vós achais que o Céu, lugar de infinita dimensão e fartamente povoado de nós, iria designar a vós, alma recém-chegada, alguém milenarmente comprometida, como é o caso de Beatriz?

E concluiu:

- Beatriz está gozando a eternidade ao lado de Dante.

Vendo minha perplexidade, emendou:

- Sou Anna Thereza e vos pergunto: o que desejais que façamos agora?

Começamos uma sucessão de atividades, que não posso dizer 'de tirar o fôlego', porque no paraíso o fôlego é infinito. Ao final de cada proeza, vinha a indefectível pergunta:

- O que desejais que façamos agora?

E tome diligências: viagem circum-navegante de balão por todo o sistema solar, queda livre por milhares de quilômetros; leitura simultânea (em suas respectivas línguas) da obra de Dostoievski, dos Ensaios de Montaigne e de D. Quixote de La Mancha; o êxtase dos melhores espetáculos circenses jamais vistos, além de coisas bem corriqueiras, mas que jamais pude fazer em vida, como jogar futebol na chuva e dançar frevo.

Ao ouvir pela milionésima vez "O que desejais que façamos agora?", respondi a Anna Thereza, meu incansável anjo do cetim rosado;

- Quero assoviar a mil decibéis com dois dedos entre os lábios, imitar o canto dos pássaros, descascar uma montanha de laranjas sem ferir nenhuma, quero fazer o diabo!... nessa 'eternidade sem fim'.

O anjo assustou-se com meu estado pânico decorrente do colapso de minhas vontades, afetadas que foram pela hiperatividade incessante. Riu do pleonasmo que eu cometera, fazendo-me rir também, mas logo fechou o cenho por eu haver evocado ninguém menos que o anjo proscrito.

Olhando-me de soslaio, fez um gesto com os dedos à maneira de um tridente apontado para baixo e disse:

- Retirai a desdita, cavalheiro!

- Foi só um modo de dizer - balbuciei, vencido pelo desconsolo.

A situação era clara. Eu não suportava mais ser capaz de tudo, de poder fazer o que quisesse naquela dimensão sem limites, e ainda mais tendo que ouvir nos intervalos: "O que desejais que façamos agora?".

Mirando com olhar plácido a bela figura de Anna Thereza, envolta em seu reluzente cetim rosado, roguei-lhe:

- Posso voltar à leitura do meu 'Dante'?

...

Minha cabeça tombou para o lado onde se encontrava o livro, aberto na última página. Completei a leitura do parágrafo, pensando se devia ou não ir ao terceiro volume, dedicado justamente ao... Paraíso.