Uma passada de olhos pelos jornais é uma ilusão. Engano pensar que ficamos bem informados. O que existe são frações de verdades que não formam um todo coerente. Com o rádio ou a televisão é a mesma coisa. O mundo se globalizou num sistema complexo demais para caber nos olhos e nos ouvidos. Por outro lado, a mídia é bastante variada. Se você quiser transitar somente pelas amenidades, poderá fazê-lo; as palavras cruzadas são um bom exemplo. Se preferir a política, lá estará ela estampada por todos os ângulos. Se quiser esportes, poderá se farar à vontade.

Tento eleger algum ponto na nuvem de acontecimentos que viram notícia a cada instante. As opções são incontáveis: os times de futebol se reforçam para a próxima temporada, as passarelas mostram as coleções outono-inverno; nenhum novo escândalo na política, hummm; a febre-amarela ameaça alguns estados brasileiros. No meio de tudo isso, descortina o cenário da irresistível rua aglomerada de gente, rua refletora de todas as contradições, acolhedora e agressiva, pujante e cruel, rica e pobre, charmosa e indiferente.

Tento me fixar em algo que possa ser a representação dessa rua desvairada, procuro um modelo no mar de variações. Não há mais modelos, referências ou coisa assim. Avançada modernidade. O jeito de cada um é o jeito de cada um. No entanto, há os 'no entantos' para consagrar a loucura! Quando vê, alguém está imitando alguém ou fica parecendo que está, o que dá na mesma.

Um mundo sem modelos é mundo feito de barro, sem forma e sem propósitos. Aqui, na rua dos amores e dos desamores, os modelos são seguidos ou contestados: terno e gravata, roupa esporte, pouca roupa, cabelo verde, saia curta, saia justa (nos dois sentidos), metal na língua, tatuagens, conversa alegre ou nervosa, conversa em dialeto grupal, conversa caminhante ao celular; explosão do corpo, exploração do corpo, corpo obeso, corpo cansado.

Desprovido de método, vou desnudando a rua que me ignora. Deixe vir o exótico, o erótico, o estrambótico, o hipnótico, o caótico. Deixe vir o que for. Deixe vir a rua na esquina que acabei de quebrar, rua que para a maioria, talvez não seja mais do que mero caminho para casa, mas que para mim é crônica, como crônica é a dor que vai e volta.

Enquanto tudo acontece no cotidiano apinhado da rua, tem gente vivendo aparentemente escondida, como se fosse desinteressada desse singular microcosmo. Puro engano! Essa gente que quase nunca aparece é de ciência, de marketing, de eloqüência oculta, gente obstinada em produzir coisas incríveis, que o restante da gente massiva que enche a rua recebe com fastio e indiferença, e incorpora ou rejeita, conforme o valor em si e o da prestação. Não por acaso, demorei um bocado para aderir ao telefone celular.