Depois de seguidos retoques na forma e no conteúdo, o texto ficou pronto. Por feliz coincidência, deparo com o anúncio de um concurso literário feito sob medida para avaliar a qualidade do que eu acabara de produzir. Até então eu não sabia da existência de tais concursos.

Obedeci à risca o edital: cinco cópias da obra, identificada apenas com título e pseudônimo. Em envelope menor, coloquei meus dados pessoais. Levei o volume aos Correios e voltei para casa exalando confiança ao som dos bem-te-vis. Era praticamente certo que um novo talento seria precocemente reconhecido.

Ao adentrar meu escritório, olhei para um lugar vago na estante. Pensei que ali seria um bom lugar para o troféu e não na sala de estar, para onde até poderia ser levado, mas só quando houvesse visitas.

À medida que se aproximava a data em que seriam anunciados os vencedores, a saber, do 1º ao 5º lugares e três menções honrosas, minha ansiedade só fazia aumentar. Ora eu era movido por uma modéstia que me punha satisfeito com a última das menções honrosas, ora eu bradava para mim mesmo que não poderia haver crônica mais bem escrita do que aquela que eu submetera ao crivo do concurso.

Quinze dias se passaram desde o aguardado dia, sem que de nada eu fosse comunicado. Supondo tratar-se de ineficiência dos organizadores do concurso, liguei para lá. Uma voz grave me atendeu, perguntando o que eu desejava. Respondi que queria notícias. A voz pediu que eu anotasse: o 1º lugar ficara com uma participante de Brasília, o 2º era do Piauí, o 3º de tal lugar etc. Como não fui mencionado, inquiri:

– Alguém de Uberlândia...?

A voz foi taxativa:

– Não! Ninguém de Minas Gerais.

Um sentimento de decepção que ameaçava se transformar em revolta encheu meu peito. Respirei fundo para evitar que nada transparecesse ao senhor que gentilmente me atendia.

Em tentativa desesperada de salvar o que restava do orgulho de um novato nas letras, fiz a pergunta fatal:

– O que foi feito das crônicas perdedoras?

A voz me respondeu com clareza perversa:

– Foram todas incineradas!

Perguntei o que fizeram das cinzas. A resposta foi um riso breve.

Reagi com rapidez, me despedindo cordialmente da pessoa. Já não havia em mim decepção nem revolta, apenas a certeza de uma lição bem aprendida. Eu precisava começar a escrever, de verdade.

Durante alguns anos, alimentei com leveza a idéia de que, ao passar pelas imediações da cidade que promoveu o concurso, eu pararia à beira da estrada e acenderia uma vela em memória de todos os textos literários que tiveram o mesmo fim que o meu.

Curioso é que o texto imolado em terras paulistas continua vivinho da silva nas entranhas do meu computador. O diabo é que eu não consigo mais identificá-lo em meio a tantos outros, dentre eles, alguns premiados, que me fizeram feliz, mas nem por isso.