Estava concentrado na leitura de um livro quando sofri um grande solavanco. O baque foi tão forte que as palavras saíram do lugar e foram amontoar-se na parte inferior das páginas. Algumas palavras maiores chegaram a se separar em sílabas. Algumas sílabas se desfizeram em letras.

Inclinei o livro ao contrário, na esperança de que as palavras, as sílabas e as letras voltassem aos seus lugares. Ajudei, dando umas pancadinhas na capa e na lombada. Consegui que elas escorregassem de novo, mas não foi possível fazer com que ocupassem suas posições originais. Percebi então que a nova ordem das palavras havia criado um livro novo, tão interessante quanto aquele que eu estava lendo. E olhe que não era um livro qualquer. Era um clássico. Nada mais, nada menos do que um Júlio Verne.

O ‘novo livro’ levou-me ao âmago de uma aventura impossível, cuja principal característica era não respeitar nenhuma lógica e nenhuma das leis da natureza que ditam a nossa realidade.

Desse livro passei a outro e depois a outro e assim por diante. Na verdade, era sempre o mesmo Júlio Verne, só que cada vez que eu sofria uma sucessão de solavancos, as palavras se reorganizavam de uma forma diferente, proporcionando-me uma nova e fascinante história.

O cansaço me fez adormecer, mas os solavancos continuaram. A cada um deles uma nova história surgia para se juntar às anteriores. Era impossível dar um sentido para aquilo. De repente, meu corpo foi jogado de um lado para o outro e um solavanco maior me acordou. O livro havia se acomodado junto aos meus pés. Antes que deslizasse para longe de mim, tomei-o nas mãos. Era o mesmo Júlio Verne de sempre: A Volta ao Mundo em 80 Dias. Ri sozinho daquela situação.

Resolvi, então, perguntar a uma pessoa que estava próxima de mim e que também lia, se os solavancos não confundiam sua leitura. Ela afirmou que sim. Chegou a provocar gargalhadas ao seu redor, ao afirmar que a bíblia que lia, transformara-se no alcorão, depois de uma sequência de intensos solavancos.

Um rapaz quis entrar na conversa e disse entre risos:

– Olha moço, eu não estou lendo nada, não. Estou apenas comendo pipoca. Mas é a primeira vez que vejo pipoca continuar pulando depois que saiu da panela.

Para alívio de todos, o ônibus deu seta para a direita e entrou num posto de combustível. Parada para almoço. Olhei para o motorista que aproveitou para desabafar:

– O governo tem de dar um jeito nessas estradas, elas têm mais buracos do que asfalto.

Concordei com ele e entramos no restaurante.

Júlio Verne não deve ter imaginado que sua ‘volta ao mundo’ pudesse ter tantas versões tropicais.