Petrônio alisava as sobrancelhas diante do espelho, julgando-as grossas demais para uma testa tão estreita. ‘Herança paterna que vem do meu trisavô’, imaginou. Bastaria abrir o armarinho no qual se (ad)mirava para que uma pinça de toalete ou uma delicada tesoura aparecesse como solução daquele frívolo infortúnio.

Era mais do que uma pequena porta com espelho a separar dois mundos. Devia abri-la e sujeitar-se ao risco de ver descortinar naquele mínimo palco uma luta de gladiadores, hesitantes e constrangidos diante de seu estranho “voyeurismo” e, ainda mais, podendo sobrar para ele uma lança entre os olhos? Ou flagraria um bizarro acasalamento de dois javalis enlameados? Ou não veria nada mais do que a simples pinça ou tesoura para resolver seus pelos fartos?!

O que encontrar no pequeno armário era uma decisão só dele, mas de difícil controle. Preferiu não se arriscar. Afinal, eram apenas oito horas da manhã, e o estômago pedia um bom café.

Petrônio encontrara a mesa posta, faltando só aquecer o leite. Levou o copo ao microondas e programou ‘um minuto’. Ao reabrir o forno deparou com um bilhete, singela obra-prima em graciosa letra cursiva. Pegou ansioso o papel; era de Sandra, porque tinha que ser de Sandra.

Convidava-o a tentarem a sorte, juntos, num curso preparatório para um emprego público. Um ligeiro calafrio trouxe-o de volta à realidade. Levou o leite aquecido para a mesa e se nutriu. O inverossímil bilhete, que o fez rir várias vezes, soara-lhe como um aviso agudo de que deveria ao menos telefonar para a amiga, cujo sumiço, já de algum tempo, devia-se à sua própria negligência na relação com alguém tão especial.

Ao voltar ao banheiro encontrou a porta fechada. Imagens espocaram: Abel sucumbia, ali e agora, à ira de Caim... Michelangelo retocava a Pietà... um ônibus colhia passageiros em dia chuvoso.

Nada disso.

Ao torcer o trinco, nem Abel, nem Michelangelo, nem outra coisa. Apenas o lamento melancólico de sua mãe:

– Tem gente!

– Desculpa, mãe – balbuciou, com doçura na voz e um aperto na alma.

Petrônio foi ao quintal concluir um choro tão rápido quanto se permitiu. Refeito, ligou para Sandra. O telefone tocou por uma eternidade, até que um anjo com voz de anunciação, respondeu com aveludada persistência:

– Alô...?... Alô...?! ... Alô...?...

– Oi, Sandra – respondeu – estou morrendo de saudades.