Retornava eu de viagem, no início de uma madrugada em que uma chuva leve e prolongada umedecera bastante o cerrado. Céu sem estrelas e sem lua; noite completamente escura. Olhei pela janela do ônibus alimentando a expectativa de ver as luzes de Uberlândia. Não as vi naquele momento, mas pude perceber no horizonte o imenso clarão que anunciava uma fulgurante metrópole.

Fui recostando vagarosamente na poltrona, de olhos fixos na escuridão, quando repentinamente surgiu pouco acima do horizonte um bólido iluminado, em rápida trajetória descendente. A queda do meteorito em chamas durou cerca de cinco segundos. Agradeci a todos os poderes existentes ou imaginados por fazer parte do espetáculo da vida.

Aquela massa mineral vinda dos confins do espaço deve ter viajado por muitos séculos, talvez por milênios, e percorrido bilhões ou trilhões de quilômetros, até vir repousar para sempre aqui entre nós. Devo ter sido a única pessoa em toda a humanidade a testemunhar aquele deslumbrante evento. A casualidade de um despertar repentino e no momento certo impedira que um acontecimento fugaz e de tamanha beleza passasse completamente incógnito.

Minutos depois, meu olhar atravessou novamente a janela e lá estava Uberlândia, esplendidamente iluminada. A nuvem de pontos luminosos descrevia graciosamente o relevo sobre o qual repousava um complexo urbano de seiscentas mil almas. Tive a nítida sensação de que fora o impacto do meteorito incandescente contra o solo duro do cerrado que acendera ao mesmo tempo todas aquelas luzes.

Aos poucos foi se definindo o traçado geométrico da cidade. Já era possível distinguir fileiras de luzes que se cruzavam umas com as outras, permitindo a visão da silhueta de casas, das fachadas comerciais e reflexos da negritude do asfalto molhado.

Dentro do ônibus, as pessoas dormiam indiferentes a tudo. Eu, ao contrário, repassava de memória aquele cenário geográfico, que quarenta anos atrás era bastante modesto, mas já me deslumbrava. A Uberlândia do início dos anos setenta, vista de onde me encontrava naquele momento, parecia do tamanho de um presépio construído sobre uma extensa mesa. Tinha começo, meio e fim. Agora estava eu a observar uma incontável multidão de pontos luminosos salpicados de ambos os lados da rodovia, a se perder nas profundidades do horizonte.

Fui tomado de uma força interior. Estava bobamente feliz por uma soma de fatores: pelo espetáculo do meteorito, pela majestosa vista noturna que tivera da cidade e porque iria me reunir à família. Lembrei-me de um dito popular: “Felicidade é pouca coisa”.