Não que Berenice estivesse cansada da vida. Ela estava cansada era de esperar a consecução de um sonho que lhe parecia ainda longe de poder realizar. No começo, tudo parecera muito simples. Ela se aposentaria e pronto!... mãos à obra. Depois, viu que o sonho lhe custaria algo mais do que juntar algum dinheiro e esperar o ‘dia da libertação’.

Era preciso aprender os segredos da ciência na qual o sonho repousava: manter um viveiro de plantas ornamentais num modesto chão que herdara de sua mãe. Eis o sonho de Berenice. Mas o escasso salário mal dava para cobrir as despesas. Depois, era um tal de gastos extras, que por mais que Berenice tentasse evitá-los, não tinha jeito. Quando não era um remedinho ocasional para curar um problema na pele ou conter a crise alérgica do seu único filho, era uma revista de entretenimento porque ninguém é de ferro.

Quando parecia que ia sobrar uns trocados para a poupança, pifava algum eletrodoméstico. O homem da oficina sentenciava: “Não dá conserto”. Então, Berenice tinha que comprar um aparelho novo, a prestações. Berenice já estava bastante comprometida com compras a prazo. Seu filho a havia convencido de que não dava mais pra ficar sem um microcomputador em casa. Além da prestação mensal que esse equipamento lhe impusera, ainda apareceram as despesas decorrentes do uso desse equipamento. Berenice via cada vez mais distante a possibilidade de ter o seu viveiro de plantas.

Mas o mundo dá voltas. Certo dia, Berenice, ao folhear uma revista velha, se deteve diante de um artigo de economia domestica que recomendava: “primeiro poupe, depois gaste.”. Aquilo soou estranho, mas logo em seguida, foi como se uma luz houvesse se acendido na mente de Berenice. Voltou ao artigo que dizia em destaque: “É preciso sanear as despesas, isto é, evitar que prestações novas aconteçam e aguardar até que as atuais sejam quitadas”.

Berenice teve o impulso de tomar um antigo caderno escolar que continha quase todas as folhas em branco. Escreveu com letras de forma na capa: “VIVEIRO BERENICE”. Na primeira página discriminou cada uma das despesas mensais e fez uma projeção das mesmas para os próximos seis meses. Finalmente, decretou com o pleno assentimento de seu filho: “A partir de agora, economia de guerra!”.

Pois não é de ver que a coisa funcionou? Em menos de dois anos Berenice iniciava as atividades do seu viveiro de plantas. O sonho finalmente se realizara.

Bem que minha avó dizia: “Pra sair bem na dança, um olho no salário e dois na gastança”.