Caminhando pelas ruas do meu bairro, avistei de longe um aglomerado de pessoas que parecia estar apreciando um acontecimento especial. Minhas pernas de criança se apressaram. Logo pude ouvir um bem ritmado discurso. Só não podia ver quem o proferia. Fosse quem fosse, estava encoberto pela parede humana que se fechava em círculo.

Como fazem os meninos, forcei um espaço na roda e desvendei o mistério. O protagonista do espetáculo era um camelô. Bem falante, puxava um fluente sotaque carioca, enquanto percorria com olhos espertos cada um dos presentes. Trajava terno preto colado ao corpo e tinha aos seus pés uma volumosa bolsa de couro, ao lado da qual jazia um lagarto, que devia estar vivo porque piscava um dos olhos preguiçosamente. O homem se referia ao réptil como Tibúrcio e garantia que Catarina, a fêmea, estava dentro da bolsa ‘se aprontando’ e de lá poderia sair a qualquer momento.

Demonstrando graça e competência, o camelô irradiava sabedoria na arte de persuadir incautos. O arguto comunicador ali estava para vender um único produto, que não tinha a menor pressa de mostrar. Adianto que se tratava de um frasco de óleo aromatizado, cuja propriedade era curar dores de qualquer espécie.

Não entendi bem o que o lagarto tinha a ver com aquele santo remédio, até que o camelô explicou tudo direitinho. O bicho era do mesmo lugar em que habitava um ser do qual se extraia o óleo milagroso, o peixe-elétrico. Como o peixe não podia sair da água e acompanhar o camelô, a tarefa foi conferida a Tibúrcio, meio a contragosto deste, conforme me parecia.

No momento certo, o camelô resolveu demonstrar a eficácia do produto, pedindo a ajuda de dois voluntários. Um deles tirou a camisa. Com largos e estudados gestos, o camelô destampou um frasco, embebeu um algodão e o friccionou na barriga do rapaz. Em seguida, pediu ao outro que cheirasse as costas do primeiro. Dominado pela magia, o homem aproximou o nariz e disse espantado: “Tá cheirando forte!...”.

O camelô concluiu triunfante: “Viram só? O óleo do peixe-elétrico tem o poder de atravessar o corpo!”. Os dois voluntários foram aplaudidos com entusiasmo.

Depois de fazer algumas referências humorísticas ao lagarto e à sua companheira Catarina, que jamais saiu de dentro da bolsa, o homem deu início à venda do remédio. Àquela altura o aglomerado de pessoas já era bem maior. Mais da metade estava completamente seduzida pelo show que ali se realizava. As vendas foram um sucesso. O homem devia ser ambidestro, pois os dedos das duas mãos praticavam simultaneamente o ato de receber o dinheiro e entregar o frasco, sempre repetindo o refrão rimado: “Mais um para o cavalheiro ali! Óleo que cura todas as dores, meus caros senhores!”.

Os camelôs da minha infância uniam competência profissional e pendor artístico. Eram parte do cenário urbano daquela época. O mesmo vendedor do óleo milagroso apareceu outras vezes vendendo bugigangas. Certa vez não resisti ao apelo e comprei uma delicada corrente ‘de ouro’ pelo preço de um picolé. Tão delicada que não resistiu à mão veloz de meu irmão de colo, ao vê-la em meu pescoço.

As cidades cresceram e os camelôs se multiplicaram em igual ou maior proporção. Não são iguais àquele do óleo milagroso; são discretos e trazem certa tristeza no olhar, por conta de questões sociais que não abordarei.

A administração pública municipal se viu obrigada a criar legislação específica, confinando-os em camelódromos, conseguindo, desta forma, evitar até certo ponto que ocupem espaço nas calçadas do centro das cidades.

A diferença fundamental entre os dois tempos, é que não temos mais camelôs por vocação, salvo as exceções de praxe. Os de hoje, são camelôs porque não encontram oportunidade no mercado formal de trabalho. Uma pesquisa junto a eles revelaria suas verdadeiras origens. Há camelôs egressos das mais variadas profissões. Alguns têm diploma de curso superior.

A propósito, qual seria o feminino de camelô?

Não existe, nas bancas padronizadas e coladas umas às outras, o charme dos camelôs de antigamente nem a veia artística que um dia marcou essa atividade. Você não encontrará em nenhuma delas o lagarto Tibúrcio, a misteriosa Catarina e as mãos ligeiras do vendedor do óleo de peixe. Hoje, tudo se limita à exposição dos produtos em meio a um silêncio de escassez e desalento.

Do produto pirata ao ‘legítimo importado’, cada cliente que faça a sua escolha no meio daquela parafernália que, em última análise, é o retrato de uma das faces do Brasil (e do mundo) de hoje, da mesma forma que o camelô-artista constituiu o retrato de uma face do Brasil da minha infância.