Já tive vontade, agora menos, de reunir uma sequência de primeiras frases dos romances e de alguns contos que li e de outros que jamais lerei. A frase de abertura de um texto literário, e especialmente de um romance, é preocupação comum a todo escritor.

Não falo da intenção de fisgar o leitor no primeiro momento. O leitor não é um peixe. É um ser paciente e tolerante, que em princípio acredita na obra que lhe pesa nas mãos. Se for de fato um leitor de romance, irá em frente, nem que seja para dizer depois que não gostou.

Falo de um desejo acalentado desde o momento em que uma tênue ideia ou um episodio fortuito ou um grave acontecimento ou a soma disso tudo suscitou no autor o que viria a ser mais tarde a referida obra. Falo do desejo acalentado de que a primeira frase seja tão mínima e tocante como a da Bíblia: “No princípio era o verbo...”.

José de Alencar abre o romance Iracema desta forma: “Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema...”.

Jamais saberemos o quanto custou a Alencar a composição desta abertura. Terá escorrido de sua cabeça para a mão enquanto se acomodava na escrivaninha? Ou a frase foi resultado penoso de muitas tentativas frustradas? Importa é que o escritor indianista romântico começou Iracema do único jeito cabível. A frase de abertura deu o tom que prevalece na obra toda.

Um exemplar de O Mártir do Golgota, de Henrique Perez Escrich, de 1957, rodou minha casa paterna por uns quarenta anos até desaparecer. Começava assim: “Belo céu da Galileia, meus olhos...”.

Meus olhos o quê?

Sinto um vazio irremediável na alma, por não haver tomado posse daquele livro, que foi se decompondo por falta de cuidados, e por saber tão pouco, só as seis palavras iniciais, de uma obra notável. Essas seis palavras foram o bastante para fazer de mim um admirador do céu.

Quando olho para cima, penso no ‘belo céu da Galileia’, principal teatro das prédicas de Jesus. O céu que inspirou Escrich transformou-se para mim na clave suntuosa que todo escritor busca.

Percorrendo minha estante de livros, constato, no entanto, que Machado de Assis não precisou de uma frase luminar para Memórias Póstumas de Brás Cubas. O livro é luminar do princípio ao fim. Mesmo assim, me dá vontade de destacar uma frase do primeiro parágrafo: “... não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor...”.

Sigo percorrendo minha estante, de lombada em lombada. Conheci Umberto Eco através de uma escolha aleatória. Não me rendi à lista dos mais vendidos, embora esta obra estivesse lá. Eco começa assim seu romance: “Era como se acordasse de um longo sono, e no entanto ainda estava suspenso em um cinza leitoso...”. Entre no Google e você saberá de que romance tirei essa frase inicial.

Sigo mais um pouco até parar de novo, desta vez em Franz Kafka. Leio a primeira frase de O Processo.

Estarei diante de um romance ou de um conto? Sem apelar a parâmetros acadêmicos, vou afirmando aos passarinhos e à majestosa mangueira do meu quintal que O Processo é uma obra híbrida, tem cara de conto e escopo de romance. Eis a frase inicial: “Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum”.

Kafka começa a obra com jeito modernista, dispensando o expediente de descrever primeiro uma geografia e o caráter dos personagens. Por isso tem cara de conto. Entretanto, o pobre Josef K. tem sua vida em complicação de tal forma crescente e sem convergências, que a obra só poderia ser mesmo um romance.

A classificação da literatura em gêneros é uma convenção, como ocorre em outras áreas da atividade humana. Entre um gênero e outro costuma haver a ‘zona cinzenta’, onde convivem dois gêneros vizinhos.

Só o que importa para mim neste momento é continuar me detendo na primeira frase de uma e de outra obra. Busco uma magia que não sei se existe. Minha estante parece dizer que sim.