Sou afeito ao universo poético que se alinhou ao mundo desde remotas épocas. Mas gosto também de futebol. Vou circulando nesse universo paralelo até me surpreender com a obra literária de alguém que se dispôs a refletir sua interação com as coisas, os acontecimentos e a vida através da poesia. Em verdade, não sou propriamente surpreendido, a não ser quando me deparo com um poeta que ainda não conhecia. Em verdade, vou ao encontro deles e me reencontro com os que selecionei como favoritos.

Álvaro de Campos é uma das personalidades com que o poeta português Fernando Pessoa se distinguiu para fazer suas leituras das coisas, dos acontecimentos e da vida. Abro seu livro tantas vezes reeditado e leio: “No lugar dos palácios desertos e em ruínas/À beira do mar,/Leiamos sorrindo, os segredos das sinas/De quem sabe amar”.

É possível que Álvaro de Campos estivesse mesmo à beira do mar, contemplando ruínas de palácios. Podia, também, estar apenas se lembrando delas. Mas isso não impede que tomemos a afirmativa do poeta como metáfora. Metaforizar a ideia poética é a maneira usual de abrir um leque bastante amplo de possibilidades interpretativas. É como dispormos de um kit de filtros, e usando cada um deles, enxergarmos de um modo particular o que foi perpetuado por palavras.

Todos nós carregamos memórias de lugares. Álvaro de Campos citou palácios desertos e em ruínas. Podemos citar outros lugares. Até simples moradias, não menos significativas e pungentes. Você já viu uma daquelas pinturas minimalistas em que só se vê uma casinha ao lado de um coqueiro? Poucos elementos como base de expressão. É disso que estou falando. Quem está falando de palácios é Álvaro de Campos.

O poeta recomenda que ‘leiamos sorrindo, os segredos das sinas de quem sabe amar’.

Eis um desafio! ‘Ler sorrindo os segredos das sinas’ pode exigir mudança imediata de comportamento, algo tão difícil nesses tempos nervosos e de imediatismos. O verso se completa, dizendo: “... de quem sabe amar”.

O desafio é maior ainda. O poeta parece querer que nos intrometamos na vida alheia: “...Leiamos sorrindo, os segredos das sinas de quem sabe amar”. E devemos fazer isto sem rusgas, sem mau humor, isto é, sorrindo.

Como sói acontecer em poesia, não tenhamos, aqui e agora, uma conclusão definitiva e nem mesmo temporária. Qualquer que tenha sido o entendimento do que você acabou de ler ou de ouvir em suas buscas literárias, faça o que melhor lhe aprouver, dos versos apreendidos. Quanto a mim, farei o mesmo. Aliás, vivo fazendo, a cada encontro que tenho com o poeta da vez.

Não me tome, contudo, por alguém que passa todo o tempo enxergando as coisas, os acontecimentos e a vida pelo filtro poético. Já afirmei que gosto de futebol. O ‘caminho único’ satura minha paciência em curto intervalo de tempo. Gosto da diversificação. Preciso do varejo que a mídia oferece: notícias, entretenimento, esportes, estilos de vida etc. Para tanto, tive que aprender a varrer o lixo.

Somos corpo também, que necessita de atividade física orientada para a saúde e o bem estar. Aí, o que vale é a roupa adequada, o filtro solar e a loção hidratante, um boné, óculos escuros e olhos para a natureza.

Quem se acostumou a refletir rotineiramente sobre as coisas, os acontecimentos e a vida acabará fazendo isso também enquanto caminha ou malha. A poesia e os poetas rondam a gente, quando pensamos muito neles. É salutar esquecê-los de vez em quando.