Caminhando no entardecer, avistei duas pessoas vindo em minha direção, a três quarteirões de distância. Os raios de sol-poente me ofuscavam a visão conforme os dois saiam de uma área de sombra e iam para a luz. Logo os associei a uma cena cinematográfica, das muitas que tenho na memória. Um filme dos anos sessenta (ou anterior) mostrava no centro da tela uma mancha colorida, oscilante e crescente, sugerindo que algo vinha ao encontro do espectador, assim como a dupla que eu avistara. Segundos após, a imagem na tela revelava, sob um sol ardente, um caubói e seu cavalo; um elegante mocinho trazendo nos braços um rifle e no olhar firme, uma missão.

A cena que a realidade me oferecia foi também se revelando, até eu perceber que se tratava de um casal de idosos, vindo a passos lentos. Formavam um conjunto harmônico, cada um ostentando seu estilo próprio de andar. O silêncio entre ambos não significava incomunicabilidade. Era evidente que interagiam, cada um por meio de discreta expressão corporal e por caminharem de braços dados. Tudo não passava de suposição, posto que a distância entre nós ainda era considerável.

À medida que a distância diminuía, eu ia construindo os atributos daquele casal. A alegria de um era a alegria do outro, a dor de um era a dor do outro. O tédio de um... bem, não devia haver tédio entre eles, porque, ao menor sinal de horas vazias, ela ia para a cozinha fritar uns bolinhos de mandioca ou ferver leite, ou era ele que se punha a ler o jornal em voz alta, para que ambos opinassem sobre as notícias. Essas conjecturas me saiam pelos olhos, no passo a passo que nos aproximava.

O casal longevo era sem dúvida um casal-modelo e não um modelo de casal. O casal-modelo, que prevaleceu no tempo de nossos avós, e chegou a alcançar a geração de nossos pais, está praticamente extinto. Seu lugar foi tomado por diferentes formatos de união que se multiplicaram a partir da revolução dos costumes. A sabedoria popular dizia que com o passar do tempo o casal-modelo começava a desenvolver uma identidade única, na aparência e nos hábitos. Por exemplo, se antes o pé de um era 36 e o do outro, 39, décadas mais tarde, ambos estariam calçando 37.

Voltando ao casal de idosos, tive que esfregar os olhos para acreditar no que acabara de ver, quando a distância entre nós era de alguns metros apenas. Olhei para os pés de um e de outro. Não havia dúvida, ela calçava os sapatos dele: um modelo social, preto, com cadarços, aparentando anos de uso, mas bem conservado; e ele vinha de salto alto, se esforçando para imprimir naturalidade e elegância no andar. Meu olhar indiscreto chamou a atenção de ambos, que me encararam com um par de sorrisos amistoso e sem nenhum constrangimento. Quando nos pusemos lado a lado, ele me disse de forma bem descontraída: “É novo, estou amaciando pra ela...”.

Fiz um gesto cordial e segui em frente. Alguns passos depois, olhei para trás. Ou viraram a esquina ou jamais existiram.