Saudade temperada é o que sentimos quando somos tocados por alguma lembrança viajada desde os confins do tempo. Saudade é matéria-prima transformável, fazendo do passado e do presente uma só dimensão. Eis que surge de repente uma cena qualquer de um filme. Meu espírito estremeceu no momento em que a imagem fez refletir um sentimento singular, sob o ruído áspero da velha máquina de projeção. Quanta coisa veio à tona, por causa dessa imagem acompanhada de uma palavra, de gestos errantes. Saudade temperada com juventude.

O que revirou meus arquivos neurais, fazendo refletir uma luz libertária, pode ter sido um daqueles filmes italianos, em preto e branco, talvez o neo-realista Ladrões de Bicicleta (1948), onde Vittorio de Sica mostra o sofrimento de um povo sofrido de guerra. Ou pode ter sido um clássico Charles Chaplin, mas é menos provável, porque Carlitos sempre me angustiou. Quem sabe, ainda, o esquecido Anjos de Cara Suja (1938). Lembro-me deste filme porque minha avó o assistiu em pranto silencioso e depois o repassou muitas vezes em palavras, durante sua prolongada lida.

Vou revendo minha saudade temperada com saudade. Quem sabe, na mesma esteira errante, uma película nacional: Assalto ao Trem Pagador (1962). Penalizei-me por Tião Medonho, um homem que sonhava com um lugar melhor do que a favela para sua família morar. Medonho tornou-se o país, neste e noutros particulares. Meus arquivos neurais estão recheados de cinema e não tenho a menor intenção de expurgá-los. A vida e o cinema se confundem nas emoções de quem nasceu nos últimos cem anos. Um bem-te-vi canta impetuoso no quintal, ordenando que eu mude o foco: saudade temperada com presente.

Valho-me desta culinária do espírito, por entender que saudade pura e simples talvez não exista; tem de vir acompanhada de um sentimento complementar que lhe dê sentido. Quem ainda se lembra de quando podíamos fazer uma viagem de automóvel, parando onde bem entendêssemos para apreciar a vasta paisagem que descortinava ou para fazer um inocente xixi? Eu não perdia uma oportunidade sequer de aproveitar um mirante e fotografar à vontade. Recentemente, avistei um deles em uma viagem de ônibus. Estava sujo e abandonado. Saudade temperada com frustração.

Ouço dizerem que é feio viver em saudade, qualquer que seja o tempero que a acompanhe. Afinal, há o tempo presente, por assim dizer o único que conta. É nele que vemos, ouvimos, falamos e ousamos com o frio na espinha. É no presente que acariciamos e somos acariciados em todos os sentidos. E ao fazermos tudo isso, estamos plantando o que poderemos colher mais tarde. Saudade temperada com amor.