Acredito em uma cosmometria universal, que integrada ao processo de formação do mundo, vem determinar a forma de todas as existências, sejam elas obras da natureza, sejam produtos da criatividade humana.

Estou falando de um poder cósmico, capaz de conferir sublime elegância à forma geométrica de entidades às quais já nos acostumamos de tal forma, que mal as percebemos.

Tomemos como exemplo-modelo um pássaro voando ao longe, tendo como pano de fundo um céu de anil. Sua silhueta é uma curva fechada que pode assumir variados modos, conforme os movimentos que faça e o ângulo pelo qual o observemos. Em qualquer situação, a silhueta é irretocável em graça e harmonia. Os artistas gráficos se valem dessa imagem viva, ao criarem logotipos e desenhos diversos. Se você não se habituou a olhar para cima e a observar os pássaros, talvez não alcance o significado dessa cosmometria; mas sempre é tempo de começar.

A cosmometria universal se fundamenta no poder da natureza em otimizar relações de força e movimento, como no exemplo do pássaro em voo. Em contraposição, temos a dura geometria estrutural entrecortada de arestas, da qual emergem as cidades de um modo geral. As cidades, representadas por suas edificações, contradizem o pássaro em vôo.

Oscar Niemayer tentou amenizar esta realidade, produzindo uma soberba arquitetura curvilínea. Louvemos Niemayer, mesmo sendo pouco o muito que fez, diante do aglomerado de caixotes de concreto e tijolos que predominam no cenário urbano.

São as curvas e suas infinitas combinações que adoçam a existência das coisas, enquanto seres geométricos. É assim no voo dos pássaros, nos relevos geográficos e na arte humana mais inspirada.

Ampliando esta abordagem, encontramos a cosmometria universal na música. Não entendo de harmonia musical, mas meus ouvidos sabem o que é isso. E seus ouvidos também. Entre as sete notas, há os semitons naturais, os bemóis/sustenidos que adoçam ou despertam a melodia, do mesmo modo que as curvas apaziguam ou animam um objeto e sublimam os pássaros avoantes.

O que seria da música sem os semitons? Quem tem ouvido apurado sabe. É notório o desconforto auditivo quando um cantor ou instrumentista mal preparado ignora os semitons. A interpretação fica irremediavelmente comprometida por ‘cantos vivos’ que machucam nosso sentimento.

Nas artes plásticas dá-se o mesmo. Os escultores já exploraram de incontáveis maneiras a representação do homem e da natureza, reproduzindo com fidelidade absoluta suas formas e sua essência. Tal é o caso, por exemplo, de Michelangelo. Outros artistas recriaram essas formas, alguns com enorme ousadia, como Picasso e Salvador Dali. Todos eles, de Michelangelo a Dali, exerceram a magia que lhes outorgou o direito de mexerem na criação original, tornando-as novas entidades portadoras de uma nova estética. Isto tem tudo a ver com os ‘recursos de transição’ de que estamos falando.

Na pintura, temos as tonalidades cromáticas. Os vários azuis, por exemplo, transitam entre uma cor elementar e a cor seguinte. As tonalidades de cor na pintura correspondem à sucessão harmônica de curvas nos objetos e nos seres vivos. Da mesma forma, correspondem aos semitons que iluminam a música.

A língua portuguesa se integra muito bem neste contexto. Dispomos da excelência de um modo verbal, conhecido e reconhecido pelo nome exato e sugestivo que lhe deram os gramáticos: O modo mais-que-perfeito!

O mais-que-perfeito é um dos mais nobres adornos funcionais de nossa expressão escrita. Equivale, em importância e efeito, à silhueta mutável durante o voo exibicionista dos pássaros, ao encurvamento sublime das esculturas, às tonalidades cromáticas das pinturas e assim por diante e por circunstante.

Quisera poder dizer mais sobre curvas, tonalidades e assemelhados, não fora essa a hora do futebol. Os times estão entrando em campo.