Sua Santidade cedeu ao desejo de vagar incógnito pelas cercanias do Vaticano. Já na rua e em trajes civis percebeu que trazia no dedo o ‘Anel do Pescador’. Era preciso ocultá-lo. Como estivesse excessivamente folgado, deixou que o mesmo deslizasse para dentro de um dos bolsos internos do casaco. Feito cidadão comum, pôde sentir o sereno da noite, comer uma fatia de pizza regada a vinho e conversar com pessoas ao acaso, só retornando aos aposentos bem tarde da noite.

Mal havia cumprido três horas de sono, veio o mordomo acordá-lo. Foi escolhida para a primeira reunião do dia uma sala decorada com telas de pintores sacros renascentistas. O Sumo Pontífice saudou a cada um dos presentes, sem conseguir segurar um bocejo. Um dos cardeais rompeu o silêncio: “Vossa Santidade está sem o anel”. Mirando as próprias mãos, foi logo dizendo a verdade. Perdera o anel em uma caminhada noturna. O cardeal-secretário ponderou que era preciso encontrar o anel. Na mesma hora foram feitos anúncios sobre o ocorrido, sem entrar em detalhes.

Peregrinos começaram a chegar à Praça São Pedro, cada um portando “O Anel do Pescador”, encontrado em vários lugares: nas proximidades do Vaticano, em Londres, na Jamaica e até em algumas cidades do continente americano.

Era preciso examinar um a um os anéis postulantes. Uma fila única foi organizada à frente de vários especialistas em ourivesaria. Findo o trabalho de identificação, restaram apenas dois candidatos. Os anéis eram idênticos entre si e reproduziam a exata configuração do anel original. O exame visual das duas peças não foi conclusivo. Era preciso que um exame de laboratório fosse feito para se chegar a uma conclusão segura. Um dos dois portadores afirmou que não sairia dali sem a jóia, a menos que fosse bem recompensado. O outro garantiu que encontrou o anel num lugar muito comprometedor. Este postulante, surpreendentemente, depositou o anel nas mãos de um cardeal dizendo: “Seja o que Deus quiser”. Os dois anéis foram parar num cofre-forte até que a situação se resolvesse.

Meses depois, o papa cedeu de novo à mesma aventura. Ao ajeitar o velho agasalho no corpo sentiu algo a lhe cutucar o coração. Era o Anel do Pescador, ali posto da primeira vez e esquecido. O Servo Divino cometera uma enorme gafe. A descoberta o fez desistir do passeio que mal começara. Era preciso comunicar o fato, isto é, a aparição do anel.

Antes de retornar ao palácio, avista um mendigo vindo cambaleante em sua direção. A cena glacial de desamparo humano fez derramar todas as virtudes. Tirou o casaco e o entregou de pronto ao homem. O agraciado olhou duas vezes para trás, não cabendo em si de tanta satisfação. Tão logo entrou no quarto, o Sumo Sacerdote foi sacudido por uma sutil lembrança.

Aí, já era tarde demais!