Poesia poesia
(José Carlos da Silva)
(4º lugar no 20º Festival de Cerquilho – SP/2007)
 
Procurei uma poesia,
não de palavras mais que concebidas.
Não de tal modo sofrida, mesmo que consagrada,
não qualquer poesia, mesmo que bela,
mas uma que pudesse ser aclamada 
a poesia da poesia
 
Essa ‘poesia poesia’,
essência e corpo da poesia mesma,
não haveria de conter frases reducionistas
nem frases prontas e vazias
nem frases que frustram nossa sede poética:
“Você no meu coração”. Definitivamente, não!
 
Não que o coração
(de quem quer que seja)
esteja vedado ao poético.
Deixemos o coração bater sossegado.
Deixemos a poesia entrar nele
de um jeito bem cuidado.
 
Procurei uma poesia
que falasse do Amor,
mas sem dizer “eu te amo”,
porque isso não é poesia,
é declaração de amor
mal nomeada de poesia.
 
Procurei uma poesia
que refletisse a vida e as coisas
 
 
e fosse ao mesmo tempo transparente
e de uma beleza além do belo,
cujo tal atributo pudesse tanto vir dos seus versos
quanto da vida e das coisas que refletisse.
 
Procurei uma poesia...
e de tanto procurá-la a fui encontrando
– aos poucos – (assim me parecia)
como se montasse um quebra-cabeças.
Mas me desencontrei nela,
era um caminho infinito e sem destino.
 
Procurei uma poesia
entre os poetas que em vida não foram
felizes nem infelizes.
A neutralidade do espírito
(pensava eu, sem razões ou argumentos)
ambientaria  a ‘poesia poesia’.
 
Procurei uma poesia
varrendo todos os tempos,
visitando todos os lugares,
tocando o halo de todos os luminares.
De novo me desencontrei.
Eram dimensões infinitas e sem destino.
 
Subi ao topo da montanha imaginária.
O ar rarefeito, o frio, a proximidade do céu,
a presença das ondas de rádio, o vôo dos pássaros
lá em baixo,
a solidão, a alegria, a vontade de chorar,
as lembranças,
o pedido de perdão, o perdão, o abraço, o beijo,
o avião passando...
E uma cascata de poesia, séculos de poesia irradiando no ar.
 
No topo da montanha, versos revoaram à minha volta
sem nenhum escrúpulo, sem o menor medo de que eu os discriminasse.
Havia risco, eu estava à procura da ‘poesia poesia’.
Cedi à razão de que essa poesia ideal vem sendo elaborada há séculos.
Cada poeta (nem todos) tem um dedo nela.
Pessoa teve que ser muitos para fazer mais que alguns versos.
 
Há um só projeto de poesia a mover o mundo e o universo.
A poesia não é uma invenção humana.
É essencialmente humana, mas transcende a humanidade.
Uma teia de poesia suporta a tudo e antecede a tudo.
A poesia é permissiva, por isso há tanta falsa poesia.
A falsa poesia pode ser bela e assim passar por poesia.
 
A poesia é uma só e não tem fim. Vai sendo escrita a infinitas mãos
que tocadas de todos os sentimentos, pensam estar escrevendo a ‘poesia poesia’.
Na imensa teia de poesia, olhos divergentes vão escolhendo versos,
mãos aventureiras vão fazendo versos (falsos, mas quem sabe?).
Os eleitos vão fazendo ou simplesmente elegendo a ‘poesia poesia’.
E a cada dia ela pode ganhar mais um verso e marcar o tempo.
 
Se a poesia e a vida convergem para a mesma luz,
uma no entrelaçar contínuo das palavras,
a outra no inevitável exercício da consciência,
então, uma poderá ser encontrada na procura da outra:
 
achando-se a vida onde se procurava poesia,
achando-se a poesia onde se procurava vida.  
A feira que acontece alegremente em uma rua
expõe uma dualidade substantiva e uma só razão.
A rua em dia de feira é rua e é feira, é feira e é rua.
Anda-se na rua, fazendo a feira,
faz-se a feira, percorrendo a rua.
Quando a feira acaba, a rua aguarda até ser feira de novo.
 
Não se fará da vida uma poesia
nem se fará uma poesia sobre a vida.
A poesia e a vida devem fundir-se em uma coisa única,
com representação, aí sim, poética, de cada cena, de cada episódio
que mereça ser lembrado mais tarde, em qualquer tempo,
por alguém que ao deparar com a poesia, veja ali a própria vida.
 
Seja cada qual um peregrino da poesia,
andarilho virtual a reter versos.
Em cada pleito retido, uma esperança
e um desejo inconfesso: ser ao menos autor de um verso.
Vão-se a procura e o tempo,
fica a ilusão e a crença na ‘poesia poesia’.