(A parte inicial de RESSURREIÇÕES lhe dará uma ideia da obra, na forma e no conteúdo. Deixe sua opinião em CONTATO. Obrigado.) 

 

MARCO ZERO 

 

Eu 

 

BELA MANHÃ DE primavera. O céu está encoberto. Livre, flutua meu pensamento. É venturoso ser parte de um novo dia e poder desfrutar de cada uma das existências à minha volta. Algumas, nascidas na quietude e no anonimato, crescem e se renovam como fontes inspiradoras.

Aconchego-me de corpo e espírito no quintal acolhedor de minha casa neste novembro de 2010. As paredes do escritório não me confinam. Tenho a presença da majestosa mangueira, cuja circunferência do tronco expande sete centímetros por ano. Esta árvore magnífica é habitada por uma variedade de pássaros que mais ouço do que vejo.

As cigarras vão fazendo sua cantoria de curta temporada. O sussurro do vento completa a sinfonia que não quer ser. O ar agradavelmente úmido e a paz reinante me predispõem à ação.

A saúde aos setenta anos ainda é boa, mas recomenda que eu comece a cumprir o prometido – a feitura de um romance anunciado aos quatro ventos.

 

O romance 

 

Recompor fatos ocorridos em Minas Gerais e São Paulo, entre 1883 e 1972, de modo a relatar a história de Maria do Carmo e dos seus, preenche quase todo o espaço ainda reservado aos meus desejos. Acredito que o mesmo ocorreria a qualquer outro a quem o destino fadasse a missão de perpetuar a história de alguém que lhe foi fundamental.

RESSURREIÇÕES será o resultado de uma sucessão cronológica de acontecimentos testemunhados por um Viajante no Tempo – o Obreiro – a quem transferirei imediatamente duas tarefas fundamentais: as inúmeras viagens e o relato por escrito do que testemunhar de 1883 a 1937. Assumirei o trabalho nos anos subsequentes e organizarei, do princípio ao fim, este precioso Diário de Família.

A farta documentação reunida nos últimos seis anos e esta primavera envolvente provocaram em mim um sentimento de liberdade proativa, impulsionando o coração para um agir amadurecido, ímpeto que não decorre de nenhuma ordem a ser cumprida, nem visa satisfazer a alguém, por mais especial que seja.

 

O patrimônio 

 

Tenho como fontes de informação três caixas abarrotadas de manuscritos, cópias de textos obtidos na internet, alguns livros; fotografias, algumas mais que centenárias, e recortes de jornais e revistas.

Conto, também, com algumas memórias vivas, às quais irei recorrendo sem cerimônia durante a jornada de trabalho.

Completa o acervo quase duas centenas de laudas impressas, resultantes de oito entrevistas realizadas entre 2004 e 2006, junto a pessoas com mais de 80 anos de idade, cinco das quais já falecidas. Só uma não pertence à genealogia de Maria do Carmo, mas a ela se ligou por laços afetivos.

Mesmo dispondo de todas essas fontes, ainda assim será necessário preencher uma boa quantidade de espaços vazios com estórias que podem (ou deveriam) ter acontecido e com personagens que podem (ou deveriam) ter existido.

 

O Obreiro

 

O Obreiro cumprirá sempre a mesma rotina:

Chegar a uma cidade e hospedar-se; tomar ciência da situação; comparecer ao local de interesse, testemunhar o acontecimento e manuscrever ou datilografar o que testemunhou, gerando documentos que serão identificados com local e data. Essas ‘unidades’ irão compondo o Diário de Família.

Não lhe será revelado que sua odisseia resultará num romance. Por este desconhecimento de causa, associado a um espírito aventureiro, o Obreiro exercerá plenamente a liberdade de ir e vir. Por isso, vez ou outra, abusará um pouco da informalidade, intercalando assuntos fora do roteiro.

É claro que o Obreiro teve que ser preparado para desempenhar este papel. Contei a ele toda a história de Maria do Carmo, deixei que ele lesse à vontade as caixas de documentos e respondi a todas as suas perguntas. Só o considerei pronto para o trabalho quando o avaliei e concluí que seu conhecimento sobre Maria do Carmo era igual ao meu e seu interesse por ela também.

 

A ajuda

 

Para que possa cumprir satisfatoriamente a totalidade da missão, o Obreiro terá a companhia permanente dos mesmos anjos que têm me guardado pela vida toda.

Eles o protegerão nas situações de risco, o estimularão nos momentos de desânimo e o impedirão de desistir, se alguma vez lhe faltar coragem.

 

Meu trabalho 

 

Ficarei em casa digitando confortavelmente, num editor de texto, as unidades que me forem chegando. Desta maneira, estarei compondo o Diário de Família, com as unidades recebidas e com outras tantas de minha própria autoria.

 

A você 

 

A história de Maria do Carmo começa a ser contada a partir de agora e posta a sua disposição em tempo real. Cada unidade que você estiver lendo acabou de ser escrita. Enquanto isto, o Obreiro continua empenhado na missão de produzir a unidade seguinte. Na sua falta, ou havendo lacunas, assumo a tarefa como seu substituto natural.

 

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Estou pondo o Obreiro a caminho. Com licença.

 

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Freguesia de Ouro Fino, província de Minas Gerais. Hospedaria Bom Jesus.

17 de março de 1883; manhã de sábado. Verão/Outono.

...

A PROVÍNCIA DE Minas Gerais vai ganhar seu 69º presidente: Antônio Gonçalves Chaves, político natural da Vila de Montes Claros, no norte de Minas. Para assumir a administração da província, teve de se desligar de idêntico cargo, na distante Santa Catarina.

Houve menos presidentes do que este número de ordem. É que alguns foram nomeados mais de uma vez. O primeiro presidente foi o Visconde de Caeté, em 1824. Fazendo as contas, cada mandatário, desde então, ocupou o cargo por um período médio de 10 meses.

Este dado estatístico é apenas uma curiosidade que só faço anotar. Não reflete com precisão a realidade, uma vez que alguns permaneceram no cargo por pouco mais de um ano, e vários deles mal chegaram a esquentar a cadeira. Acredito, entretanto, que a maioria deve ter obtido o que desejava para si e os seus e, eventualmente, para a província.

Estive em Vila Rica de Ouro Preto dias atrás, visitando a cidade que já foi a Capital do Brasil. Lá, um advogado me falou dessa abundância de nomeações a cargos públicos. O governo imperial é pródigo em distribuir benesses. Age por costume herdado da coroa portuguesa, que doou terras e distribuiu títulos de nobreza à mão cheia.

Não almejo terra nem título, apenas uma credencial para facilitar o cumprimento da missão que tenho pela frente. A ideia é me apresentar ao novo mandatário mineiro, desde que consiga alguém que me conduza até ele. Enquanto isto, passo os dias na Hospedaria Bom Jesus, nesta simpática freguesia de Ouro Fino.

A título de encenação e nada mais, trago um bem composto brasão de armas, confeccionado a partir da marca que consagra o sobrenome da família. Para sua feitura direi que foi utilizado ouro de 18 quilates, extraído de uma jazida de Santana do Sapucaí, próspero povoado desta jurisdição, distante três léguas de onde me encontro e de umas cinquenta léguas de Vila Rica.

Tive a sorte de conhecer o Secretário de Província para Assuntos Culturais, o senhor Calimério Dantas, ontem, sexta-feira, em uma casa de tolerância situada na parte baixa da freguesia de Ouro Fino. Adentrei a casa pelas oito da noite, indo me acomodar numa saleta parcialmente isolada do ambiente onde três casais dançavam ao som de um bandolim e um violão.

O secretário, refestelado em uma poltrona, ouvia de uma falante rapariga de como sucedeu se entregar àquela vida. Pus os pés no local no exato instante em que a moça dizia:

- Morro de pavor só de pensar que o meu irmão mais velho apareça aqui de repente e me encontre desse jeito. Ai!... Jesus. O Secretário, apontando para mim, brincou: "Olha o seu irmão aí..." e deu uma gargalhada. Em seguida se retraiu, constrangido da liberdade que tomara diante de um desconhecido. Aderi à brincadeira com uma resposta qualquer. O homem se levantou com garbo e me estendeu a mão, anunciando: - Calimério Altivo de Oliveira Dantas, Secretário da Província de Minas para Assuntos Culturais. E desculpe a brincadeira, Senhor.

Comemorei no íntimo aquele encontro alvissareiro e fui logo perguntando ao homem que bons ventos o traziam a Ouro Fino. Sentamo-nos de frente um para o outro, tendo cada um de nós uma moça ao lado a nos aguardar. Ao ouvir seu intento, declarei a razão de minha presença em Ouro Fino e emendei sobre onde e quando poderíamos nos reunir de novo para uma conversa na qual haveríamos de trocar mais informações sobre nossos interesses comuns. Calimério me surpreendeu ao me convidar à casa do Coronel Afrânio Bento Pereira, onde se achava hospedado e em cujo local, segundo ele, poderíamos nos estender à vontade no assunto.

Marcamos o encontro para o dia seguinte, isto é, para hoje, sábado, às duas horas da tarde. Meus anjos conspiram por mim. Afora isso, abstenho-me de relatar o que se passou em seguida na casa noturna. Apenas que Iracema se comportou de maneira bastante amável e cumpriu seu papel. E eu, o meu.

Almoçarei agora na hospedaria. Às duas horas estarei chegando à casa do Coronel Afrânio, a quem não conheço. Desta vez a mão que escreve não doeu.

Ass.: VT

 

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Freguesia de Ouro Fino. Casa de Coronel Afrânio.

20 de março de 1883; manhã de terça-feira.

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CHEGUEI AO CASARÃO do Coronel Afrânio Bento Pereira poucos minutos antes da hora combinada. Calimério me aguardava. O sábado era de sol forte com jeito de que poderia chover. Situada a cinquenta metros da Igreja de São Francisco de Paula, a residência é sem dúvida a edificação mais imponente de todas as que circundam a praça. Mais tarde tive que voltar à pensão para pegar meus pertences e fechar a conta.

Da prole de onze filhos, ainda moram com o casal: os gêmeos Afraninho e Elias, sucessores naturais do pai nas lidas da fazenda; Maria Francisca, de 22 anos incompletos, e João Batista, de 11 anos, a rapa do tacho, como se costuma dizer aqui. Pena que falte certo trato e refinamento a Maria Francisca, mas isso ainda poderá ser resolvido, caso o destino lhe reserve um bom casamento.

Calimério me apresentou ao casal, a quem exibi no momento oportuno o brasão, ao perceber pelo jeito de ambos que a peça faria sentido. O casal se desdobrou em palavras de afeto e boas-vindas, interessado em saber o motivo de minha presença no arraial. Disse que buscava informações sobre uma ascendência familiar, que poderia incluir Ouro Fino e outras paragens do sul da província.

O Coronel quis saber que parentescos eu buscava naquelas bandas, orgulhando-se de conhecer todo mundo da região circunvizinha.

Meus anjos estão comigo, pensei, e lhe disse que procurava por certo Giovanni não sei de quê. Sabia apenas que se tratava de um imigrante italiano que teria coabitado com uma escrava (ou filha de) e que desse relacionamento nascera um filho de nome Antônio.

O Coronel fez uma troça que o deixou com um riso amarelo, ante a imediata repreensão de Dona Gertrudes. Disse ele:

Mas foi desse jeito mesmo que a sua família começou?

Respondi alguma coisa que aliviasse o homem daquele mal-estar.

A censura de Gertrudes deu uma conotação mais intrincada ao jogo que eu incitara de propósito. Queria ver se o Coronel era perspicaz o bastante para notar a incongruência temporal existente entre minha presença ali e a referência a Giovanni.

Coronel Afrânio retomou a postura fidalga, forçando alguns movimentos faciais enquanto pensava se conhecia algum Giovanni. Logo abriu um sorriso e disse com sua voz grave e intensa que talvez pudesse ser o Vaninho, encarregado da fazenda do doutor Lupércio, a três léguas dali. E completou:

Ele tem um jeito italianado. Acho que é italiano mesmo.

Quando o assunto parecia esgotado, o Coronel voltou-se para mim e disse com ar de espanto:

Mas que bobagem a minha; esqueça o Vaninho meu camarada, não faz sentido que o filho dele com uma negrinha tenha alguma coisa a ver com o senhor.

Só fiz acalmá-lo, concordando com ele, mas vibrando por dentro. Meu sentimento era de que poderia ter encontrado o que procurava.

Fez-se um lapso de silêncio na sala. O Coronel aproveitou e pediu licença para se retirar, dizendo que tinha de resolver umas coisas da fazenda. Dona Gertrudes me conduziu ao quarto que eu poderia ocupar enquanto estivesse a realizar minhas tarefas investigativas. Calimério manteve distância de meu colóquio com o casal anfitrião, permanecendo na varanda. Fui até ele para a conversa combinada.

Calimério começou dizendo que viera ao sul da província para substanciar seus apontamentos acerca do reflexo da Lei do Ventre Livre sobre as condições de vida da população escrava local. A lei fora promulgada em 28 de setembro de 1871, portanto, há quase doze anos. Ouvi sua exposição, interpelando-o algumas vezes. O secretário agradou-se de meu interesse no assunto. Seu rosto se iluminava conforme ia detalhando as partes do projeto.

Era evidente que a missão inflava seu ego e devia visar, antes de mais nada, uma ascensão política. Em dado momento, Calimério pediu que eu falasse de meu trabalho. Comecei anunciando o título: “Levantamento Histórico-familiar a partir da Freguesia de Ouro Fino, na Província de Minas Gerais, em Tríbia Perspectiva de Tempo”.

Após expor ao secretário minhas motivações e as linhas gerais do projeto, enfatizei que precisava conseguir o quanto antes um documento oficial que tivesse como signatários – ele – Calimério Dantas, e o presidente da província, Sua Excelência Antônio Gonçalves Chaves. Falei de um diploma legal que me outorgasse licença para acessar arquivos públicos. Acrescentei que este documento poderá, por via indireta, me facilitar o acesso a registros documentais das dioceses e paróquias da região.

Enquanto tomávamos um café gentilmente servido pela jovem Maria Francisca, afirmei, olhando nos olhos do secretário, que ninguém, além dele, seria capaz de me honrar com tal diploma. Procurei sensibilizar o amigo recente, mostrando-lhe a convergência entre nossos trabalhos. O seu, notadamente geoestatístico, traz em seu âmago um forte apelo social; o meu, de cunho afetivo, atende ao pleito de uma família que deseja conhecer melhor suas linhas hereditárias.

Insisti que ambos os projetos se completam na direção de uma síntese de caráter humanístico, ainda mais se resolvermos, mais adiante, integrá-los em um estudo único de maior envergadura, que poderá transcender os limites da província de Minas Gerais, ganhando uma dimensão nacional.

Um brilho repentino nos olhos de Calimério Dantas me fez supor que ele vislumbrara a possibilidade de uma ascensão funcional mais ligeira, caso nossos projetos se ajudassem mutuamente. Antes de firmar uma posição diante das questões que eu acabara de apresentar, me indagou com (falsa) curiosidade sobre o significado da ‘tríbia perspectiva de tempo’.

Disse-lhe, em rápida toada, que se tratava de uma abordagem ‘freyreana’ (alusiva ao sociólogo Gilberto Freyre; 1900 - 1987, mas não disse isso a ele) dos três tempos a que estamos confinados: presente, passado e futuro.

Calimério é dos que evitam firulas intelectuais. Nossa conversa mostrou ser ele nadador de superfície, sujeito a dizer impropriedades quando o incitam. Assim, fui convergindo para o documento que eu lhe solicitara, até ouvir que atenderia meu pedido sem demora.

Regozijei-me intensamente no íntimo. Os anjos tocaram trombeta entre os lírios do jardim.

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As omissões em um diário são normais e podem ser reparadas na ocasião seguinte. Acabo de me lembrar, por exemplo, de ainda não haver anotado a primeira manifestação do secretário Calimério sobre a ‘tríbia perspectiva’, em nosso encontro casual na casa noturna, na sexta-feira última. Faço agora o registro.

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O homem se mostrara interessado nas duas palavrinhas, mais para criar um ‘clima’ de erudição no bordel do que para me agradar. Nem mesmo a aproximação de duas raparigas – Iracema (provavelmente um nome falso), garota de longos cabelos negros, e Michele (idem), de tímida compleição e cabelos dourados – foi capaz de nos demover do colóquio inadequado para aquele lugar.

Para satisfazer sua aparente curiosidade, defini Tempo Tríbio com eloquência, como sendo uma abordagem global e unificada dos três tempos clássicos, a partir da ideia inovadora de que o presente se expande para trás e para frente, invadindo parte do passado e do futuro, para que nele caiba a enorme complexidade do ato de viver.

Calimério Dantas se mostrou admirado, quase perplexo, com a definição “acadêmica” que acabara de ouvir. Iracema se interpôs entre nós, oferecendo-nos um coquetel a base de conhaque, laranja e canela, enquanto Michele apenas observava sorridente, sem saber, talvez, que seu sorriso mostrava a precariedade de seus dentes. A presença cada vez mais insinuante das raparigas e o efeito dos coquetéis (Calimério tomou dois) acabaram por nos conduzir às alcovas. Despedimo-nos com um ‘até breve’.

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Dona Gertrudes veio nos avisar que serviria o jantar às seis. Achei Calimério melancólico, mas não tive ideia do que se passava com o homem.

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Sinto um grande bem estar nesta manhã de fim de outono. Estou hospedado na casa de uma família abastada e creio haver conquistado a confiança de Calimério Dantas.

Voltaire assegura: "Todas as riquezas do mundo não valem um bom amigo".

Ass.: VT

 

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Fazenda do Trinca-Ferro. Freguesia de Ouro Fino. Semana Santa.

22 de março de1883; manhã de quinta-feira.

 

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MEU PRIMEIRO CONTATO com a Fazenda do Trinca-Ferro se deu ontem, por volta das sete e meia da manhã.

Viemos de Ouro Fino num carroção puxado por uma parelha de mulas. As costelas suportaram bem os solavancos, mas o estômago não. Tive enjoo. A viagem durou hora e meia e foi bastante divertida, mesmo tendo de ser interrompida uma vez para que eu vomitasse. O carroção, ideia do filho mais velho do Coronel Afrânio, tem uma cobertura de tecido de algodão cru, impermeabilizado com resina de mamona. Vim acompanhado do casal anfitrião e do filho caçula, João Batista.

Desci do veículo tomado pela beleza do perfil da Serra da Mantiqueira, na paragem dos Campos do Mandu, área rural da Freguesia de Ouro Fino. O contraste entre o verde das montanhas e o azul e branco do céu sempre exerceu em mim um grande fascínio.

Por volta das oito e meia da manhã da mesma quarta-feira, já me encontrava às margens do córrego Queima-Pólvora, nos domínios da Fazenda do Trinca-Ferro. É início de outono, mas o clima de verão ainda persiste. As pessoas daqui são amáveis, prestativas e humildes. João Damasco, um dos empregados mais próximos do Coronel, me disse que ocorrem nesta época do ano pancadas rápidas de chuva, seguidas de sol intenso. Segundo ele, o tempo precisa firmar logo, para facilitar a colheita do arroz. O milho e o feijão já foram colhidos e estão armazenados nos porões do casarão.

Lembro-me agora de ter ouvido do Padre João Ovídio – quando este visitou o Coronel, dias atrás, em Ouro Fino – que as lavras de ouro atraíram aventureiros para esta região, a partir de 1750, impulsionando o surgimento de um núcleo urbano, que gerou Ouro Fino. A fala do padre soou para mim como a origem comum de qualquer cidade, variando apenas naquilo que tenha atraído os pioneiros para cada lugar. Uma ou mais ordens religiosas vieram se instalar aqui, como em todas as outras partes do Brasil, coadjuvando um poder “judiciário”, em consonância mais ou menos harmônica com o poder do estado.

O declínio das jazidas de ouro da região, segundo o padre João Ovídio, fez com que as atenções se voltassem para a excelente qualidade da terra, do clima e da bacia hidrográfica, dando origem ao desenvolvimento da agricultura e da pecuária. Está, assim, justificada a existência desta bela Fazenda do Trinca-Ferro e de todas as demais da região.

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Estou sob as atenções cordiais dos gêmeos Afraninho e Elias. Calimério Dantas teve que ir a Vila Rica. Prometi ao secretário buscar o documento combinado, mas estou em vias de me arrepender disso.

Registro alguns nomes que tenho ouvido aqui: João Damasco, Damião Ladeira, Zé Cândido, Cainé, Juvêncio; Maria Santinha, Constança, Madalena, Aurora.

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A Semana Santa não transparece na rotina da fazenda. Seu único indício aqui se dá por conta de uma imagem de Santo Antônio, encoberta por um tecido roxo.

Ass.: VT

 

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Fazenda do Trinca-Ferro.

23 de março de 1883; manhã de sexta-feira.

 

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ONTEM PELAS TRÊS horas da tarde fui me espairecer um pouco. O pátio frontal à casa é delimitado por uma cerca de bucho não aparada. Caminhei pela trilha que leva ao local onde vivem os negros. Não havia ninguém lá, com exceção de uma mulher de uns trinta anos. Estava agachada em uma bica-d’água, de costas para mim. Algo a ocupava. Dei dois passos para o lado e vi que esfregava carvão nos dentes. Perguntei para que aquilo. Sorrindo com timidez, me respondeu: “Prus dente ficá branco, sinhô... ”. Dito isto, enxaguou a boca e saiu correndo sem me olhar.

Passei entre duas casinhas de pau-a-pique de onde se descortina um amplo terreno em declive. Ouvi um leve ruído. Ao pôr um olho na quina da parede, assisti a uma cena que me desconcertou pelo resto do dia. Uma negrinha adolescente, nua, mergulhava uma cuia em um tacho e entornava água no corpo reluzente: ora no rosto, ora em um seio, ora noutro. Ora parava o banho, parecendo se entregar a um devaneio, ora retomava o prazer de se lavar. Afastei-me na ponta dos pés para não quebrar o encanto daquela criatura.

Ao adentrar o casarão, dei com dona Gertrudes, que me dirigiu um olhar e um sorriso maliciosos. Disse-lhe um ‘tudo bem?’, tendo como resposta um riso, desta vez mais aberto, como se estivesse em dificuldade de contê-lo.

Rimos juntos sem saber (ou bem sabendo) de quê, até que chegou João Batista, indagando o que havia acontecido.

Não aconteceu nada!... disse eu, já sem conter uma gargalhada. Mais tarde, vi que a janela do quarto de dona Gertrudes dava de frente para a senzala.

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O jantar foi bem animado, com seis pessoas à mesa. Depois fomos para a sala ouvir os casos do Coronel Afrânio, sobre os primórdios da Fazenda do Trinca-Ferro e as peripécias de seu pai, Balduino Bento da Silva. Uma hora mais tarde, sem maiores cerimônias, o Coronel anunciou que ia apagar o lampião, senha para que fosse cada um para o seu lugar.

Já quase adormecera, quando a porta do meu quarto se abriu e um vulto atravessou a escuridão. Olhei por uma fresta e vi os gêmeos na sala. Um deles segurava uma lamparina. Ambos cochichavam e riam baixinho com certo assanhamento.

Fixando o olhar entre a cama e o guarda-roupa, dei com a negrinha do banho de cuia.

Com os braços em cruz contra o peito, ela apenas sussurrou:

– Oi, Sinhô!

Ass.: VT